Regras do jejum maronita
O jejum é uma das disciplinas mais antigas da Igreja Maronita, mais antiga do que a maioria dos costumes conhecidos no Ocidente latino. Enraíza-se na tradição siríaca, onde os eremitas das montanhas do Líbano jejuavam como modo de vida, e sobrevive hoje numa forma mais branda que qualquer família maronita pode guardar. Este é um guia das regras: o que significam o jejum e a abstinência, quem está obrigado a eles, o jejum antes da comunhão, e os tempos de jejum que dão ritmo ao ano maronita.
Duas coisas merecem ser ditas de início. Primeiro, a disciplina maronita não é sobre comida. É sobre transformar a fome do corpo em oração e liberar para os pobres o que teria sido gasto à mesa. Segundo, as regras atuais são mais leves do que as tradicionais, e ambas estão descritas a seguir.
Jejum e abstinência: as duas palavras
A tradição maronita usa duas palavras distintas, e elas significam coisas diferentes.
Jejum significa não tomar alimento nem bebida, exceto água, da meia-noite até o meio-dia. O medicamento não quebra o jejum. Depois do meio-dia, pode-se fazer uma refeição normal, seguindo a regra de abstinência daquele dia. Muitos maronitas guardam esse jejum da meia-noite ao meio-dia todos os dias da Grande Quaresma, e não só nos dias exigidos.
Abstinência, na tradição maronita, significa renunciar à carne e, em sua forma mais plena, também aos laticínios: ovos, leite, queijo e manteiga. Isso é mais rigoroso do que a regra católica latina, que se abstém apenas de carne. A abstinência maronita remonta à tradição monástica, onde o jejum era de todos os produtos de origem animal.
Quem está obrigado ao jejum
As regras do jejum e da abstinência obrigam os maronitas com 14 anos ou mais e fisicamente capazes de guardá-las. A Igreja tem o cuidado de fazer da disciplina uma ajuda, e não um dano.
Estão dispensados da obrigação os maiores de 60 anos, os enfermos e aqueles com qualquer condição médica que o jejum agravaria, as gestantes e lactantes, e os que realizam trabalho físico pesado. Um pároco pode conceder dispensa por qualquer motivo grave. O objetivo da regra nunca é prejudicar a saúde. Na dúvida, a tradição inclina-se para a misericórdia, e o maronita que não pode jejuar é incentivado a dar esmola ou a acrescentar oração em seu lugar.
Os dois dias de jejum obrigatório
Na prática maronita atual, dois dias do ano carregam juntos a obrigação plena do jejum e da abstinência.
A Segunda-feira de Cinzas, primeiro dia da Grande Quaresma maronita. A Quaresma maronita começa numa segunda-feira, não na Quarta-feira de Cinzas romana. Nesse dia os fiéis jejuam da meia-noite até o meio-dia e não comem carne o dia todo.
A Sexta-feira Santa, dia da morte do Senhor, guardada no mais profundo silêncio da Semana Santa maronita. Aplicam-se o mesmo jejum e a mesma abstinência.
Além desses dois dias, os maronitas abstêm-se de carne em todas as sextas-feiras do ano, em memória da Crucificação, a menos que uma grande festa caia na sexta-feira.
O jejum eucarístico
Distinto dos jejuns dos tempos litúrgicos está o jejum eucarístico, guardado antes de receber a Sagrada Comunhão. A norma católica universal, que os maronitas seguem, é não tomar alimento nem bebida, além de água e medicamentos, por uma hora antes da comunhão.
A disciplina oriental mais antiga era mais rigorosa, um jejum completo desde a meia-noite antes da Liturgia da manhã, e muitos maronitas devotos ainda o guardam. Aproximar-se da Eucaristia de estômago vazio é um ato de reverência, uma pequena fome que diz que o Corpo de Cristo é o primeiro alimento do dia.
Os quatro tempos de jejum do ano maronita
O calendário maronita tradicional guarda quatro tempos de jejum, cada um preparando para uma grande festa. Hoje apenas a Grande Quaresma tem dias de jejum obrigatórios, mas os quatro permanecem práticas devocionais vivas, e muitas famílias e mosteiros ainda os guardam. Para a forma completa do ano, veja o calendário litúrgico maronita.
1. A Grande Quaresma (Soum al-Kabir)
O grande jejum de quarenta dias antes da Páscoa, da Segunda-feira de Cinzas ao início da Semana Santa. É o tempo de jejum mais longo e mais importante do ano, com seis domingos nomeados que conduzem à Ressurreição. Leia o relato completo da Grande Quaresma maronita, suas regras e suas datas.
2. O Jejum dos Apóstolos
Um jejum que conduz à festa dos santos Pedro e Paulo, em 29 de junho, honrando os apóstolos que levaram o Evangelho ao mundo. Na tradição siríaca, recorda os apóstolos jejuando e orando antes de serem enviados. Sua duração variou ao longo da história e das regiões.
3. O Jejum da Assunção
Também chamado de Jejum da Mãe de Deus, é guardado nas duas primeiras semanas de agosto, antes da festa da Assunção, em 15 de agosto. É um jejum mariano, um tempo de devoção a Nossa Senhora, profundamente amado no Líbano, onde a festa da Assunção é um dos grandes dias do ano. Combina naturalmente com a devoção a Nossa Senhora do Líbano.
4. O Jejum da Natividade
O jejum das semanas que precedem o Natal, guardado ao longo do Tempo maronita da Gloriosa Natividade, as seis semanas do Anúncio que conduzem à festa da Natividade. É o equivalente maronita do Advento, um jejum de expectativa alegre. Veja o Natal maronita para o tempo que ele prepara.
Prática tradicional e atual
O jejum maronita foi outrora muito mais rigoroso do que é hoje, e vale a pena conhecer a regra antiga, porque ela ainda molda a devoção de muitas famílias e de cada mosteiro.
A regra tradicional. Até cerca da década de 1920, o jejum maronita durante a Grande Quaresma significava abster-se de carne e de todos os laticínios, junto com óleo, vinho e ovos, em cada dia útil da Quaresma, rompido apenas por algumas festas que caíam dentro do tempo, como a festa de São Marão em 9 de fevereiro, os Quarenta Mártires e São José. Era um jejum genuíno, próximo da prática das Igrejas Ortodoxas Orientais.
A disciplina atual. Hoje a obrigação vinculante foi aliviada para a Segunda-feira de Cinzas, a Sexta-feira Santa e as sextas-feiras do ano, em consonância com a prática católica mais ampla. Mas a Igreja incentiva os fiéis a fazerem mais do que o mínimo. Guardar o jejum da meia-noite ao meio-dia por toda a Quaresma, abrir mão de carne e laticínios nos dias úteis da Quaresma, ou assumir um jejum pessoal são todas maneiras de viver a tradição antiga por escolha, e não por obrigação.
Jejum, oração e esmola
A tradição maronita nunca separa o jejum das outras duas disciplinas que o completam. Jejum sem oração é apenas uma dieta. Jejum sem esmola guarda para si o que deveria ter ido aos pobres.
O ensinamento antigo é simples: o que você não gasta com comida, dê a quem não tem nenhuma. Jejue da carne, e alimente o faminto com o que economizou. Jejue do ruído, e ore no silêncio que você fez. O estômago vazio destina-se a abrir o coração, e a tradição mede um jejum não pelo que foi renunciado, mas pelo que foi dado.
Por que o jejum maronita é diferente
O jejum maronita difere do jejum latino de três maneiras. Abstém-se de laticínios tanto quanto de carne, não de carne apenas. Sua Grande Quaresma começa na Segunda-feira de Cinzas, não na Quarta-feira de Cinzas. E seu ano guarda quatro tempos de jejum, não um só. Os três vêm das raízes siríacas e monásticas da Igreja Maronita, que se manteve na prática mais antiga e mais rigorosa do Oriente cristão mesmo permanecendo em plena comunhão com Roma. Para compreender essa herança, leia sobre a tradição maronita e a Divina Liturgia maronita.
Perguntas frequentes
Quais são as regras do jejum maronita?
Os dois dias de jejum e abstinência obrigatórios são a Segunda-feira de Cinzas, primeiro dia da Grande Quaresma, e a Sexta-feira Santa. Nesses dias os fiéis não tomam alimento nem bebida, exceto água, da meia-noite até o meio-dia, e não comem carne o dia todo. Os maronitas também se abstêm de carne em todas as sextas-feiras do ano.
O que significa abstinência na Igreja Maronita?
A abstinência, na tradição maronita, significa renunciar não apenas à carne, mas também aos laticínios, aos ovos, ao leite e ao queijo. Isso é mais rigoroso do que a regra latina, que se abstém apenas de carne. O jejum, separadamente, significa não tomar alimento nem bebida, exceto água, da meia-noite até o meio-dia.
Quem é obrigado a jejuar na Igreja Maronita?
O jejum e a abstinência obrigam os maronitas de 14 anos ou mais que sejam fisicamente capazes. Os maiores de 60 anos, os enfermos, as gestantes e lactantes, e aqueles que realizam trabalho físico pesado estão dispensados. Um pároco pode conceder dispensa por motivo grave.
O que é o jejum eucarístico maronita?
O jejum eucarístico é guardado antes de receber a comunhão. A norma que os maronitas seguem é abster-se de alimento e bebida, exceto água e medicamentos, por uma hora antes da comunhão. A tradição oriental mais antiga guardava um jejum mais longo desde a meia-noite, que muitos maronitas devotos ainda observam.
Quantos tempos de jejum tem a Igreja Maronita?
Quatro: a Grande Quaresma antes da Páscoa, o Jejum dos Apóstolos antes de 29 de junho, o Jejum da Assunção antes de 15 de agosto, e o Jejum da Natividade antes do Natal. Hoje apenas a Grande Quaresma tem dias de jejum obrigatórios, mas os outros permanecem práticas devocionais vivas.
Veja também: A Grande Quaresma maronita. A Semana Santa maronita. O calendário litúrgico maronita. O Natal maronita. A tradição maronita.