A Divina Liturgia Maronita

Entre em uma igreja maronita em uma manhã de domingo e o que você ouvirá primeiro é o canto. Não é órgão, não é um hino em sua língua, mas uma longa e sinuosa linha de sílabas conduzida pela voz humana: Qaddishat aloho, qaddishat hailthono, qaddishat lo moyuto. Santo és, ó Deus. Santo és, ó Forte. Santo és, ó Imortal. As palavras são siríacas, descendentes litúrgicas do aramaico que Jesus falava, e o canto tem sido entoado quase da mesma forma desde o século IV. A liturgia que você está ouvindo é o Qurbono, a Divina Liturgia Maronita, e é uma das formas de culto cristão continuamente celebradas há mais tempo na Terra.

Este artigo explica o que é o Qurbono, de onde vem, como está estruturado, as seis anáforas que a Igreja Maronita usa e como difere do rito romano. Foi escrito para leitores que talvez tenham assistido a uma Missa maronita e se perguntado o que estava acontecendo, para católicos romanos curiosos sobre seus irmãos orientais e para maronitas que querem compreender mais profundamente aquilo que rezam desde a infância.

A palavra Qurbono

Qurbono (ܩܽܘܪܒܳܢܳܐ, também transliterado como Qurbana ou Qorbono) é a palavra siríaca para "oferenda" ou "sacrifício". Compartilha raiz com o hebraico korban, a mesma palavra usada no Livro do Levítico para as oferendas do Templo. Para um maronita, o Qurbono não é apenas o ritual da Eucaristia. É o ato de oferecer — a oferta de pão, vinho, palavra e de si mesmo ao Pai, pelo Filho, no Espírito Santo. O nome é a teologia.

O nome siríaco completo é Qurbono Qaddisho, a Santa Oferenda. Maronitas de língua árabe costumam chamá-lo de al-Quddas al-Ilahi, a Santa Divina. Os católicos romanos chamariam isso de Santa Missa. As realidades são as mesmas. Os nomes pertencem a famílias litúrgicas diferentes.

De onde vem o Qurbono

O Livro dos Atos registra que os primeiros cristãos foram chamados cristãos em Antioquia. Essa mesma cidade — na costa mediterrânea do que hoje é o sul da Turquia e o norte da Síria — produziu uma das primeiras liturgias cristãs. No século IV, a liturgia antioquena tinha se dividido em duas famílias: siríaca ocidental (de onde vieram as liturgias maronita, siríaca ortodoxa e siríaca católica) e siríaca oriental (as liturgias caldeia e assíria). O Qurbono maronita é o herdeiro direto da tradição siríaca ocidental antioquena.

Os eremitas e monges que seguiram São Maron nos séculos IV e V trouxeram essa liturgia antioquena para as montanhas libanesas, onde foi preservada e desenvolvida ao longo de quinze séculos. A influência latina, sobretudo depois das Cruzadas e da reunião formal dos maronitas com Roma no século XII, foi acrescentando gradualmente alguns elementos romanos. No século XX, uma série de reformas, culminando nos livros litúrgicos revisados de 1992 e 2005, restaurou grande parte do caráter siríaco original, mantendo as partes que se haviam tornado caras ao povo ao longo dos séculos.

A estrutura do Qurbono

O Qurbono maronita tem duas partes principais, padrão que compartilha com toda liturgia cristã antiga: a Liturgia da Palavra e a Liturgia da Eucaristia. Dentro dessas duas partes, a estrutura é específica da tradição maronita.

1. Preparação e abertura

O sacerdote prepara o pão e o vinho num altar lateral enquanto o povo se reúne. A liturgia se abre então com incenso, o sinal da cruz ("Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo") e uma saudação trinitária. Um hushmo, breve hino de louvor, segue. Em algumas estações, o Qolo ou Madrosho, um canto mais extenso, ocupa o lugar do Glória romano.

2. A Liturgia da Palavra

O lecionário maronita traz leituras do Antigo Testamento, uma Epístola e um Evangelho. Antes do Evangelho, canta-se um Aleluia ou, na Quaresma, um Mzamor (canto baseado em salmo). O Evangelho é proclamado pelo sacerdote ou diácono, frequentemente voltado para o povo e com uma bênção da assembleia. Segue-se a homilia.

3. O Credo e a Transferência

O Credo Niceno-Constantinopolitano é recitado, frequentemente numa mistura de árabe, siríaco e da língua local. O ofertório que se segue é chamado de Transferência das Oferendas: o sacerdote leva o pão e o vinho em procissão ao altar principal, acompanhado de incenso e de um canto solene.

4. A Anáfora (Oração Eucarística)

Este é o coração do Qurbono. O sacerdote começa com um diálogo: "A paz esteja convosco." — "E com o vosso espírito." — "Elevai as vossas mentes e os vossos corações." — "Estão com o Senhor." Canta-se o Sanctus (Qaddish, qaddish, qaddish — Santo, santo, santo). Segue-se a anáfora particular escolhida para o dia, culminando nas Palavras da Instituição (quase sempre em siríaco, ainda que o restante esteja em inglês ou francês), na Epíclese (invocação do Espírito Santo sobre as oferendas) e nas comemorações dos santos e dos falecidos.

5. A Fração e a Comunhão

O sacerdote parte o pão consagrado — a fração — e diz um conjunto de longas orações chamadas Meshadsonutho, que meditam sobre o sentido do Corpo e Sangue de Cristo. Segue-se o Pai Nosso. A Comunhão é distribuída, geralmente por intinção (o pão é mergulhado no cálice e colocado na boca), com o sacerdote dizendo: "O Corpo e o Sangue de Cristo, para o perdão dos pecados e a vida eterna." O pão fermentado usado na tradição maronita difere da hóstia ázima romana e é, ele mesmo, sinal da Ressurreição.

6. A Despedida

Uma oração final, uma bênção e a despedida. As despedidas maronitas incluem, com frequência, uma breve procissão de ação de graças, durante a qual o sacerdote unge os fiéis na testa com o óleo de São Charbel ou com o óleo de bênção usado na festa, prática que a comunidade ama e que visitantes católicos romanos costumam recordar por muito tempo.

As seis anáforas

Onde o rito romano tem um pequeno número de Orações Eucarísticas (com uma delas, o Cânone Romano, dominando durante a maior parte de sua história), a tradição maronita preserva uma rica família de anáforas. Cada uma tem sua própria ênfase teológica, sua própria poesia e seu próprio lugar no ano litúrgico. As seis mais usadas nos livros litúrgicos maronitas atuais são:

A Anáfora de São Tiago, Irmão do Senhor. A mais antiga e a mais solene. Usada em grandes festas, incluindo a Natividade, a Páscoa e a festa de São Tiago. Suas raízes estão na liturgia de Jerusalém do século IV. É a anáfora que mais preserva a textura do culto cristão mais antigo.

A Anáfora de São Pedro Apóstolo. Uma anáfora mais curta e sóbria, rezada com frequência nos domingos comuns. Sua estrutura é próxima da família antioquena.

A Anáfora de São João Evangelista. Uma anáfora mística e contemplativa, usada nas festas de São João e em certos domingos do Tempo do Pentecostes.

A Anáfora de São Marcos Evangelista. Uma anáfora com clara influência alexandrina, que entrou na tradição maronita pelos primeiros contatos ecumênicos entre os patriarcados.

A Anáfora de São Sixto de Roma. Um testemunho da ligação precoce e duradoura da Igreja Maronita com Roma.

A Anáfora do Sharar (a "Terceira Anáfora de São Pedro"). Chamada Sharar por sua palavra inicial em siríaco ("confirma"), esta anáfora está entre as mais próximas do mundo das formas litúrgicas usadas nas primeiríssimas comunidades cristãs. Estudiosos notaram sua notável semelhança com as liturgias descritas na Didaqué, do fim do século I.

Outras anáforas existem no patrimônio maronita — cerca de oitenta sobreviveram em forma manuscrita — e um sacerdote pode usá-las em ocasiões específicas. O rodízio pelas anáforas é uma das marcas de uma liturgia viva na tradição: a mesma Eucaristia, em palavras sempre variadas.

O Qurbono em siríaco, árabe e na língua local

Desde o Concílio Vaticano II e as reformas maronitas que se seguiram, o Qurbono é celebrado em uma mistura de línguas. As Palavras da Instituição ("Isto é o meu Corpo…") são quase sempre cantadas em siríaco. Os hinos fixos — o Trisagion, o Sanctus, o Credo, o Pai Nosso — costumam ser cantados em siríaco ou árabe. As leituras e a homilia são na língua local: inglês, francês, espanhol, português ou árabe, dependendo do país.

Para as paróquias da diáspora, essa mistura é prática e profundamente simbólica. Um adolescente maronita nascido em Montreal, Sydney ou em São Paulo pode acompanhar a homilia em inglês, francês ou português, cantar o Trisagion em siríaco, recitar o Credo em árabe e receber a Comunhão pela fórmula siríaca. A própria liturgia ensina continuidade através das línguas, das gerações e dos oceanos.

Como o Qurbono difere da Missa romana

Ambas as liturgias são plenamente católicas. Ambas confeccionam o mesmo sacramento. Mas as duas pertencem a famílias diferentes, e vale a pena conhecer as diferenças.

Língua. A Missa romana é em latim (ou na língua local). O Qurbono é siríaco-aramaico, árabe e a língua local.

Pão eucarístico. A Missa romana usa pão ázimo (uma hóstia fina). O Qurbono usa pão fermentado, rico em levedura, sinal da Ressurreição.

Comunhão. A comunhão romana costuma ser apenas a hóstia, com o cálice em ocasiões especiais. A comunhão maronita é normalmente por intinção — o pão consagrado é mergulhado no Precioso Sangue.

Orações eucarísticas. O rito romano tem um número pequeno e fixo. O rito maronita gira em torno de uma família de anáforas, algumas com mais de dezesseis séculos.

Orientação. Muitas paróquias maronitas ainda celebram ad orientem, com o sacerdote voltado para o leste ao lado do povo durante a anáfora.

Canto. A liturgia maronita é fortemente cantada. Mesmo um Qurbono diário simples tem mais elementos cantados do que uma típica Missa rezada romana.

Sacerdotes casados. A Igreja Maronita ordena homens casados ao sacerdócio (embora não ao episcopado), seguindo a antiga prática das Igrejas Orientais.

O Qurbono na vida de uma família maronita

O Qurbono não é apenas uma obrigação dominical. É o ritmo pelo qual uma família maronita marca sua vida. Uma criança é batizada, crismada e recebe a primeira Eucaristia numa mesma liturgia (veja Tradições do Batismo Maronita). Um casal se casa sob o Rito da Coroação (veja Tradições Matrimoniais Maronitas). Os falecidos são comemorados no 3º, no 9º e no 40º dia em Qurbonos oferecidos. Cada festa do calendário litúrgico maronita traz sua própria anáfora própria e seus cantos próprios. Para uma família maronita, o Qurbono é o fio que costura cada momento a todos os outros.

Assistindo a um Qurbono maronita pela primeira vez

Se você está visitando uma paróquia maronita pela primeira vez — talvez nos Estados Unidos, na França ou no Brasil, sobretudo em São Paulo — algumas notas vão ajudar.

Você não precisa saber siríaco. Um missal bilíngue ou um folheto da paróquia estará disponível, com o texto em português (ou inglês, francês, espanhol) ao lado do siríaco ou árabe. Os cantos vão te conduzir. Sente-se, fique em pé e ajoelhe-se com a assembleia; na dúvida, simplesmente acompanhe. O sinal da paz no rito maronita é oferecido pelo sacerdote a partir do altar e passado adiante, de pessoa a pessoa, em vez de trocado horizontalmente.

Se você é católico, pode receber a Comunhão. A intinção é oferecida na boca; aproxime-se com as mãos juntas. Após a Comunhão, muitas paróquias maronitas praticam uma breve unção da testa na despedida, especialmente nas festas de São Charbel.

Perguntas frequentes

O que é o Qurbono?

Qurbono é a palavra siríaca para "oferenda" e é o nome próprio da Divina Liturgia Maronita, a celebração católica maronita da Eucaristia. Pertence à família litúrgica siríaca ocidental antioquena, uma das mais antigas tradições litúrgicas cristãs.

Em que língua é celebrada a Missa maronita?

Uma mistura de siríaco (descendente litúrgico do aramaico), árabe e da língua local de cada paróquia — inglês, francês, português ou espanhol. As Palavras da Instituição são tradicionalmente cantadas em siríaco em cada paróquia do mundo.

Qual é a diferença entre a Missa maronita e a Missa católica romana?

Ambas são plenamente católicas, mas vêm de tradições antigas diferentes. O Qurbono é cantado, usa pão fermentado, faz rodízio de várias anáforas (orações eucarísticas), preserva textos litúrgicos siríaco-aramaicos e frequentemente é celebrado voltado para o leste (ad orientem).

O que é uma anáfora?

A oração eucarística da liturgia — a oração central em que o pão e o vinho são oferecidos e o Espírito Santo é invocado. A Igreja Maronita usa seis anáforas principais, a mais antiga sendo a Anáfora de São Tiago, irmão do Senhor.

Os católicos romanos podem participar e receber a Comunhão em uma Missa maronita?

Sim. A Igreja Maronita está em plena comunhão com Roma. Um católico romano cumpre a obrigação dominical assistindo a um Qurbono maronita, sendo bem-vindo para receber a Comunhão.

Veja também: A tradição maronita. Que língua Jesus falava?. O calendário litúrgico maronita. Tradições do Batismo Maronita. Tradições Matrimoniais Maronitas. O Cristianismo Oriental.

Reze à maneira maronita

Meditações diárias, o rosário maronita e a novena a São Charbel — em inglês, francês, árabe e português.

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