A Grande Quaresma Maronita (Soum al-Kabir)

A Grande Quaresma maronita, chamada Soum al-Kabir em árabe e Sawmo Rabbo em siríaco, é o tempo penitencial central do ano católico maronita. Quarenta dias de jejum, liturgia mais quieta e oração aprofundada, que atravessam a Semana Santa até o Grande Domingo da Ressurreição.

Ela começa na Segunda-feira de Cinzas, não na Quarta-feira de Cinzas. Sua disciplina de jejum, historicamente, era mais rigorosa que a do rito romano. E cada um de seus seis domingos leva o nome de um Evangelho: Caná, o Leproso, a Mulher Hemorrágica, o Filho Pródigo, o Paralítico, o Cego. O que segue é um guia sobre como a Grande Quaresma é observada hoje na Igreja Maronita.

Quando começa a Grande Quaresma maronita?

Segunda-feira de Cinzas, não Quarta-feira de Cinzas

A Grande Quaresma maronita começa dois dias antes da Quarta-feira de Cinzas do rito romano. O dia é chamado de Segunda-feira de Cinzas, ou em árabe Ithnayn al-Ramad. Os fiéis recebem as cinzas em um breve serviço no início da Liturgia da manhã, com as palavras tradicionais do rito: Lembra-te de que és pó, e ao pó voltarás.

Por que na segunda e não na quarta? A contagem maronita dos quarenta dias da Quaresma, seguindo a tradição siríaca antioquena, conta o jejum inclusivamente a partir da manhã de segunda-feira e se encerra na sexta-feira da sexta semana, antes do Sábado de Lázaro e do Domingo do Hosana. A contagem romana começa dois dias depois, na Quarta-feira de Cinzas, e chega ao seu quadragésimo dia na noite da Quinta-feira Santa. Ambas contam quarenta dias; simplesmente ajustam o intervalo ao calendário de formas diferentes.

As datas para 2026 e 2027

A Igreja Maronita, em comunhão com Roma, segue a Páscoa gregoriana. A Segunda-feira de Cinzas e a Páscoa se movem com a Páscoa:

Para a forma completa do ano maronita, veja nosso guia sobre o calendário litúrgico maronita.

Os seis domingos da Quaresma

Diferentemente do rito romano, que numera seus domingos da Quaresma (Primeiro, Segundo, Terceiro), a tradição maronita nomeia cada domingo pela sua leitura evangélica. A sequência, preservada do antigo lecionário siríaco, conduz os fiéis por uma série de encontros com Cristo.

1. Domingo do Milagre de Caná

O domingo de abertura da Quaresma lê João 2,1–11, as bodas de Caná. O primeiro milagre público de Cristo, a transformação da água em vinho, abre o tempo. A leitura é deliberada: a Grande Quaresma começa não com uma ordem, mas com um sinal, o primeiro milagre, em um casamento.

2. Domingo da Cura do Leproso

O segundo domingo lê Marcos 1,40–45 (ou passagem correlata) — a cura do leproso que se aproxima de Jesus dizendo: Se quiseres, podes purificar-me. Jesus o toca, e o leproso é restaurado.

3. Domingo da Mulher Hemorrágica

O terceiro domingo lê a história da mulher com fluxo de sangue por doze anos (Marcos 5,25–34 ou Lucas 8,43–48), que toca a orla do manto de Cristo e é curada. Jesus lhe diz: Tua fé te salvou; vai em paz.

4. Domingo do Filho Pródigo

O quarto domingo lê Lucas 15,11–32, a parábola do filho pródigo. É o ponto médio estrutural da Quaresma no rito maronita, e o ponto de virada: o filho que se levantou e voltou para o pai. Os hinos maronitas tradicionais para este domingo ecoam o acolhimento do pai.

5. Domingo da Cura do Paralítico

O quinto domingo lê João 5,1–18, a cura do paralítico na piscina de Betesda, que esperou trinta e oito anos por alguém que o carregasse para dentro das águas. Cristo pergunta: Queres ser curado? e o levanta de pé.

6. Domingo da Cura do Cego

O sexto domingo lê João 9, a cura do homem cego de nascença. Após longa catequese, o cego na piscina de Siloé passa a ver. O domingo encerra a série dos encontros quaresmais: o tempo levou os fiéis do vinho de Caná à abertura dos olhos cegos.

As regras maronitas de jejum

A regra tradicional

O antigo jejum maronita, preservado em comunidades monásticas e mantido por devotos leigos até há pouco, é mais rigoroso que o romano:

Abstinência completa de carne e laticínios. Ao longo dos quarenta dias, nada de carne, ovos, leite, queijo, manteiga ou iogurte. Eram os alimentos abandonados pelos monges na tradição antioquena e estendidos aos fiéis leigos durante a Quaresma.

Uma refeição completa por dia. Historicamente feita depois do meio-dia, e na observância mais estrita depois das 15h ou do pôr do sol. Uma pequena colação (pão, fruta) era às vezes permitida pela manhã.

Peixe, azeite e vinho permitidos. O jejum maronita, diferentemente de muitas Quaresmas ortodoxas, permite peixe em todo o tempo. Azeite de oliva e vinho, com moderação, não são proibidos.

A disciplina atual

Na prática pastoral moderna, orientada pelo Patriarcado de Antioquia e pelas eparquias na diáspora, a disciplina obrigatória é mais leve:

Segunda-feira de Cinzas e Sexta-feira Santa: jejum estrito. Sem carne, sem laticínios, uma só refeição.

Todas as sextas-feiras da Quaresma: abstinência de carne.

O jejum tradicional pleno (sem carne, sem laticínios pelos quarenta dias) é recomendado e encorajado, mas não estritamente obrigatório na diáspora. Muitas famílias maronitas o mantêm como devoção pessoal, especialmente no Líbano e em comunidades com laços monásticos fortes.

Dispensas

Aplicam-se as dispensas tradicionais:

Peixe, azeite e vinho: o que você pode comer

Uma mesa quaresmal maronita, mantida tradicionalmente, se apoia nos alimentos da montanha libanesa: azeite, pão, azeitonas, lentilhas, grão-de-bico, bulgur, grãos, verduras, frutas, castanhas. Mjaddara (lentilhas com arroz), fatuche (salada de pão), mhammara (pasta de pimenta com nozes), tabule e pratos semelhantes formam a espinha dorsal dos quarenta dias. Peixe é permitido e frequentemente consumido aos domingos. Azeite e vinho não são proibidos e, no costume libanês, um pouco de vinho acompanha a única refeição diária.

O que se abandona é a carne de animais terrestres e as gorduras animais e laticínios a ela associados. A abstinência quer devolver ao corpo a simplicidade da terra, para corresponder à simplicidade da alma em sua oração.

Oração e esmola na Grande Quaresma

O jejum é apenas um dos três pilares. A Quaresma maronita aprofunda a oração e a esmola de modos específicos.

O Rito da Assinatura do Cálice (Rashm al-Kaas). Nas noites de terça-feira durante a Quaresma na tradição maronita, muitas paróquias celebram o Rito da Assinatura do Cálice, uma paraliturgia quaresmal de canto, Escritura e oração silenciosa. É próprio do rito maronita.

O Qolo e os hinos siríacos. Os grandes hinos quaresmais da Igreja Maronita, preservados em siríaco e árabe, são cantados na oração da manhã e da tarde. Têm uma beleza tristonha própria do tempo.

Via-Sacra. Nas sextas-feiras, muitas paróquias rezam a Via-Sacra, frequentemente ao ar livre, com leituras em árabe, siríaco e na língua local.

Confissão e Eucaristia. A Quaresma é o tempo privilegiado do sacramento da reconciliação. A maioria das paróquias oferece horários estendidos de confissão.

Esmola. A sadaqa da Quaresma não é apenas uma doação de caridade; é entendida como restituição e esmola, um retorno de recursos aos pobres. As paróquias frequentemente organizam coletas para os doentes, para os refugiados e para os cristãos em dificuldade no Oriente Médio. Veja nosso artigo sobre os Cristãos do Oriente Médio para contexto.

Do Domingo do Hosana ao Grande Domingo da Ressurreição

A Grande Quaresma se encerra no Domingo do Hosana, nome maronita do Domingo de Ramos. Os ramos são abençoados, e as crianças tradicionalmente procissionam pela igreja carregando-os, em eco às multidões que saudaram Cristo entrando em Jerusalém.

Começa então a Semana do Sofrimento (Hasho), a Semana Santa. As liturgias se intensificam. A Quinta-feira Santa é marcada pelo lava-pés. A Sexta-feira Santa é um jejum estrito, com o serviço da Assinatura do Cálice substituído pelo Rito do Sepultamento do Senhor. O Sábado Santo é silencioso.

No Grande Domingo da Ressurreição, na Páscoa, o jejum de quarenta dias se rompe. A Divina Liturgia (Qurbono) é celebrada com canto siríaco, sinos e a antiga saudação al-Masih qam, haqqan qam: Cristo ressuscitou. Verdadeiramente, Ele ressuscitou. A tradição maronita libanesa mantém então um Tempo Pascal (Qyomto), os cinquenta dias até Pentecostes.

Por que a Quaresma maronita é diferente da Quaresma romana

Ambos os ritos mantêm um jejum de quarenta dias. Ambos terminam na Páscoa. Mas a forma é distinta:

Segunda-feira de Cinzas vs Quarta-feira de Cinzas. O maronita conta a partir da segunda, o romano a partir da quarta. Ambos alcançam quarenta dias; a matemática do calendário difere.

Rigor do jejum. O jejum maronita tradicional (sem carne, sem laticínios, quarenta dias) está mais próximo da Grande Quaresma ortodoxa do que da romana. A disciplina atual está mais próxima da prática romana, com dias obrigatórios reduzidos.

Domingos nomeados. O rito maronita nomeia cada domingo pelo seu Evangelho. O rito romano os numera.

O coração siríaco. A Quaresma maronita é cantada em siríaco e árabe. Os hinos são antigos. A experiência é contemplativa, mais do que didática, enraizada nos padres do deserto e no monasticismo do século IV de São Maron.

Ambos são expressões do mesmo mistério pascal. Maronitas que participam de Missas do rito romano durante a Quaresma, e católicos latinos que visitam paróquias maronitas, frequentemente encontram a mesma Quaresma em dois sotaques.

Perguntas frequentes

Quando começa a Grande Quaresma maronita?

A Grande Quaresma maronita começa na Segunda-feira de Cinzas, dois dias antes da Quarta-feira de Cinzas do rito romano. Estende-se por quarenta dias, terminando no Domingo do Hosana (Ramos), seguido da Semana Santa (Hasho) e do Grande Domingo da Ressurreição. Em 2026, a Segunda-feira de Cinzas caiu em 16 de fevereiro; em 2027, será em 8 de fevereiro.

Quais são as regras maronitas de jejum?

O jejum maronita tradicional é mais rigoroso que o romano: abstinência de toda carne e de laticínios (incluindo ovos, leite, queijo e manteiga) ao longo dos quarenta dias, com uma refeição completa por dia, tomada depois do meio-dia. A prática atual, orientada pelo Patriarcado Maronita, obriga os fiéis a jejum estrito na Segunda-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa e à abstinência de carne em todas as sextas-feiras da Quaresma. O jejum tradicional pleno é encorajado como devoção pessoal, na medida em que cada um puder.

Os maronitas podem comer peixe na Quaresma?

Sim. A tradição maronita, como a romana, permite peixe na Quaresma. O peixe não conta entre os alimentos proibidos do Grande Jejum. Vinho e azeite também são permitidos com moderação. O que se abandona tradicionalmente é a carne de animais terrestres e os laticínios.

Por que a Quaresma maronita tem seis domingos nomeados?

Cada domingo da Grande Quaresma recebe o nome de sua leitura evangélica: o Milagre de Caná, a Cura do Leproso, a Mulher Hemorrágica, o Filho Pródigo, o Paralítico e o Cego. A sequência foi fixada pelo antigo lecionário siríaco antioqueno, que a Igreja Maronita preserva. Os domingos nomeados conduzem os fiéis por uma série de encontros com Cristo.

Os maronitas precisam jejuar os 40 dias inteiros?

Segundo a disciplina atual, os dias obrigatórios são a Segunda-feira de Cinzas e a Sexta-feira Santa (jejum estrito: sem carne, sem laticínios, uma refeição) e todas as sextas-feiras da Quaresma (abstinência de carne). Crianças menores de 14 anos, idosos, gestantes e lactantes, doentes e quem realiza trabalho físico pesado são dispensados. Manter o jejum tradicional pleno pelos quarenta dias é encorajado como devoção pessoal da Quaresma. São Charbel, notavelmente, mantinha um jejum ainda mais estrito o ano inteiro: uma refeição por dia, sem carne nem laticínios.

Veja também: O calendário litúrgico maronita. Calendário maronita visual. A Divina Liturgia Maronita (Qurbono). A tradição maronita. A língua aramaica de Jesus. O rosário maronita. São Charbel. Santa Rafqa. São Maron.

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