A Semana Santa Maronita (Hasho, a Grande Semana)
A Semana Santa maronita, chamada Hasho (a Semana do Sofrimento) ou Usbu al-Alam em árabe, é a coroa do ano maronita. No seu centro está o Sabt al-Noor, o Sábado da Luz, quando a Igreja se coloca entre o túmulo e o túmulo vazio e ergue a primeira chama da Ressurreição.
É o ponto culminante dos quarenta dias da Grande Quaresma, e os antigos cantos siríacos desses sete dias carregam um peso que nenhuma outra semana do calendário consegue igualar. O que segue é uma caminhada pela Grande Semana maronita, dos ramos de palma do Domingo de Hosana ao fogo pascal do Sabt al-Noor.
A Grande Semana no Calendário Maronita
Onde o Hasho se situa no ano
A Semana Santa chega ao fim do Soum al-Kabir, a Grande Quaresma, que começa na Segunda-feira das Cinzas e corre por quarenta dias até o Sábado de Lázaro e o Domingo de Hosana. A Igreja Maronita, em comunhão com Roma, segue a data gregoriana da Páscoa. Em 2027, a Grande Semana irá do Domingo de Hosana, em 21 de março, até o Grande Domingo da Ressurreição, em 28 de março.
A semana leva seu nome, em siríaco e em árabe, do sofrimento: Hasho, Usbu al-Alam. E, no entanto, a mente maronita mantém todo o arco num único olhar. Paixão e Ressurreição não estão separadas. Cada noite da Semana Santa já se inclina para a luz do Sabt al-Noor.
O arco dos sete dias
Os dias se desdobram em uma ordem fixa: Domingo de Hosana, depois Segunda, Terça e Quarta-feira Santas com os Ritos da Signação noturnos, depois Quinta-feira dos Mistérios, Sexta-feira das Dores, Grande Sábado da Luz e o Grande Domingo da Ressurreição. Cada dia traz seu próprio nome, seu próprio canto e seu próprio gesto.
Para a forma completa do ano em torno desta semana, veja nosso guia sobre o calendário litúrgico maronita.
Domingo de Hosana (Sha'aneen)
Palmas, ramos de oliveira e crianças de branco
O Domingo de Hosana, chamado Ahad al-Sha'aneen, abre a Grande Semana. As paróquias abençoam folhas de palmeira e pequenos ramos de oliveira, e no Líbano e em toda a diáspora as crianças caminham pela igreja em procissão vestidas de branco, carregando velas e palmas. Os recém-nascidos são frequentemente vestidos para sua primeira procissão neste dia, e os mais velhos abençoam os mais novos com uma mão sobre a cabeça.
A bênção dos ramos
O rito das palmas na tradição maronita inclui uma bênção solene no início da Divina Liturgia, seguida por uma procissão que percorre o interior da igreja. Os cantos são antigos, e em muitas paróquias são cantados em siríaco, em árabe e no idioma local da diáspora, em sequência.
Onde o rito romano lê o relato completo da Paixão neste dia, a tradição maronita tende a manter o Domingo de Hosana como um dia de pura hosana e de acolhida. A Paixão entra na liturgia nas noites que se seguem, através dos Ritos da Signação.
Segunda a Quarta-feira Santa: Os Ritos da Signação (Taqs al-Sharh)
Ofícios noturnos da Pshitto
Nas noites de segunda, terça e quarta-feira da Grande Semana, as paróquias maronitas tradicionalmente celebram o Taqs al-Sharh, os Ritos da Signação, às vezes chamados de ofícios da Pshitto, do siríaco. O nome reúne uma família de meditações da Paixão que conduzem os fiéis pelos últimos dias de Cristo antes de sua prisão.
Não são liturgias completas. São ofícios contemplativos de canto, Escritura e oração silenciosa. Os fiéis vêm depois do trabalho, e as igrejas ficam apenas parcialmente iluminadas.
Os doze sinais
A tradição fala de doze sinais ou momentos colhidos dos relatos da Paixão: a unção em Betânia, o complô dos sacerdotes, o lava-pés, a traição, a prisão, os julgamentos, o escárnio, o caminho para o Gólgota, a crucificação, a morte e o sepultamento. A lista exata varia por paróquia e por livro litúrgico, e em alguns lugares as meditações se integram aos ritos de quinta e sexta-feira, em vez de se espalharem pelas três noites anteriores.
O que permanece constante é a intenção. Essas noites destinam-se a desacelerar o coração, a deixar a Paixão chegar não como uma história apressada, mas como uma série de estações que a alma efetivamente percorre.
Quarta-feira Santa e o Rito da Lâmpada
Em algumas paróquias, especialmente no Líbano, a Quarta-feira Santa carrega também o Rito da Lâmpada (Taqs al-Sirage), um antigo ofício de unção com óleo abençoado. Os fiéis vêm à frente para a unção da fronte, das mãos e do coração, em preparação para a Paixão dos dias seguintes. A prática não é universal em todas as comunidades maronitas, mas onde sobrevive, pertence ao patrimônio siríaco mais antigo que a Igreja compartilha com seus vizinhos antioquenos.
Quinta-feira Santa: Khamis al-Asrar
A Quinta-feira dos Mistérios
A Quinta-feira Santa na Igreja Maronita é chamada Khamis al-Asrar, a Quinta-feira dos Mistérios, ou em algumas comunidades Khamis al-Ghasl, a Quinta-feira do Lava-pés. É o dia em que a Igreja recorda a Última Ceia, a instituição da Eucaristia e o lava-pés dos discípulos.
O Lava-pés (Ghusl al-Arjul)
Toda paróquia maronita que puder celebra o Ghusl al-Arjul, o lava-pés ritual, durante a liturgia da Quinta-feira Santa. O sacerdote ou o bispo ajoelha-se diante de doze fiéis, frequentemente jovens e meninos, e lava seus pés em um silêncio quebrado apenas pelo canto. Em comunidades monásticas, o abade lava os pés dos monges. O gesto é o próprio gesto de Cristo, mantido fresco ano após ano.
A Anáfora dos Doze Apóstolos
O Qurbono maronita na Quinta-feira Santa é tradicionalmente celebrado com a Anáfora dos Doze Apóstolos, uma das mais antigas orações eucarísticas em uso contínuo na cristandade e parente próxima da forma que o Cânon Romano viria a assumir. Ouvi-la rezada na própria noite da Última Ceia é estar muito perto do começo.
O desnudamento do altar
Após a liturgia, o altar é desnudado. Toalhas, velas e vasos são retirados. O santuário fica despido durante a noite, e em muitas paróquias os fiéis fazem uma vigília de oração silenciosa diante da Eucaristia reservada, ecoando a vigília do Getsêmani.
Sexta-feira Santa: Jumu'a al-Alam
O dia das dores
A Sexta-feira Santa é Jumu'a al-Alam, a Sexta-feira das Dores, ou al-Jumu'a al-Azima, a Grande Sexta-feira. Neste dia não há Divina Liturgia. A Igreja permanece com o Cristo crucificado.
A Adoração da Cruz
O ofício da manhã ou do meio-dia gira em torno do Rito da Adoração da Cruz. Uma grande cruz é trazida em procissão, desvelada em etapas e apresentada aos fiéis para a veneração. Em muitas paróquias a cruz é deposta na horizontal, e os fiéis vêm à frente um a um para beijar a madeira e deixar uma pequena flor ou uma oração dobrada aos seus pés.
O Rito do Sepultamento (Taqs al-Dafn)
À noite, as paróquias maronitas celebram o Taqs al-Dafn, o Rito do Sepultamento do Senhor. Uma imagem em tecido do Cristo crucificado, ou em algumas paróquias uma pequena estátua, é colocada em um andor de flores. O andor é levado pela igreja em procissão, e frequentemente pelas ruas do lado de fora, com os fiéis caminhando atrás em silêncio quebrado por cantos e sinos.
O grande hino desse rito é Shubho Lo'yad, o lamento siríaco que conduz a Igreja para a escuridão do túmulo. É um dos hinos mais antigos em uso contínuo entre os maronitas, e mesmo aqueles que não cantam siríaco há décadas descobrem que a melodia sobe sem ser convocada.
O jejum estrito
A Sexta-feira Santa é guardada como jejum estrito: sem carne, sem laticínios, comida mínima. No costume libanês mais antigo, apenas água era tomada até o pôr do sol. Famílias que não conseguem manter o jejum completo apenas com água muitas vezes mantêm uma versão mais leve, evitando refeições sólidas até o ofício da tarde.
Grande Sábado: Sabt al-Noor
O Sábado da Luz
Entre o silêncio da Sexta-feira Santa e a alegria da Páscoa está o Sabt al-Noor, o Sábado da Luz. É um dos dias mais amados do ano maronita, e no Líbano sua observância mistura igreja e lar em uma única chama.
A Cerimônia da Luz
No coração do Sabt al-Noor está a Cerimônia da Luz. Na igreja escurecida, uma única chama é acesa e o sacerdote a leva para a frente, cantando o anúncio da Ressurreição. A chama é passada de vela em vela entre os fiéis, até que toda a igreja brilha. No Líbano, algumas paróquias ainda conduzem essa luz até a praça da vila, onde as famílias esperam com velas e lanternas para levar a chama para casa.
O Rito da Paz
Em muitas comunidades, a liturgia do Sabt al-Noor inclui um Rito da Paz prolongado, no qual os fiéis trocam a saudação al-Masih qam: Cristo ressuscitou. E a resposta haqqan qam: verdadeiramente, Ele ressuscitou. A troca tradicionalmente atravessa os bancos e as gerações, até que cada pessoa da igreja tenha sido saudada.
A quebra do jejum
O Sabt al-Noor é também a noite tradicional para a quebra do Grande Jejum. As famílias se reúnem em casa depois da liturgia para uma refeição que geralmente inclui a primeira carne e o primeiro laticínio da estação. O clima é de alegria discreta, mais do que de festa: a maior celebração aguarda a manhã.
Domingo de Páscoa e Segunda-feira Brilhante
O Grande Domingo da Ressurreição
O Grande Domingo da Ressurreição, Ahad al-Qiyama, abre-se com a plenitude do Qurbono maronita, os cantos siríacos no seu registro mais alto, sinos tocados durante toda a liturgia e a saudação al-Masih qam, haqqan qam trocada continuamente entre os bancos. A Igreja atravessou da Paixão à Ressurreição.
Segunda-feira Brilhante e o ma'amoul
A oitava da Páscoa, chamada Qyomto em siríaco e Usbu al-Fasih em árabe, continua por oito dias. Na Segunda-feira Brilhante, as famílias libanesas trocam ma'amoul: pequenos biscoitos amanteigados recheados com tâmaras, nozes ou pistaches e polvilhados com açúcar de confeiteiro. Os biscoitos são assados nos dias que antecedem a Páscoa e, em algumas paróquias, abençoados no Sabt al-Noor. Compartilhá-los entre as casas é um dos gestos mais doces da Páscoa maronita.
Junto com o ma'amoul, as famílias tingem ovos de vermelho, prática compartilhada em toda a tradição siríaca, e se cumprimentam em siríaco, em árabe ou na língua da diáspora. A estação avança em direção ao Pentecostes, mas a própria oitava é o mel dentro do ano.
Jejum e Práticas Domésticas
O jejum da Grande Semana, guardado com rigor no costume libanês mais antigo, se aperta ao longo da semana e chega ao ponto mais estreito na Sexta-feira Santa. Muitas famílias não consomem carne nem laticínios desde o Domingo de Hosana até a noite do Sabt al-Noor, e tradicionalmente somente água na própria Sexta-feira Santa. A disciplina pastoral atual é mais leve, mas o jejum mais antigo é amplamente mantido como devoção pessoal.
Em casa, as famílias frequentemente acendem uma vela de Sabt al-Noor numa lanterna junto à porta da frente e a deixam queimar durante a noite, até a manhã de Páscoa. No Líbano, a vela é às vezes acesa a partir da chama trazida da igreja paroquial, ligando o lar familiar ao fogo pascal de toda a comunidade. Mesmo em apartamentos da diáspora, muito distantes do Líbano, o hábito persiste: uma vela, acesa no Sabt al-Noor, mantida acesa até o amanhecer.
As casas são geralmente limpas nos dias que antecedem o Domingo de Hosana, as roupas de Páscoa são separadas no Grande Sábado, e o ma'amoul é assado numa tarde de mulheres e filhas reunidas ao redor da mesa da cozinha. Veja nossa página sobre a tradição maronita para saber mais sobre como o ano é guardado em casa. O ritmo desses pequenos gestos leva o grande mistério para dentro de salas comuns, do mesmo modo que a festa de São Charbel em julho continua reunindo lares libaneses em torno de uma única chama.
Perguntas Frequentes
Quando é a Semana Santa Maronita?
A Semana Santa maronita começa no Domingo de Hosana (Domingo de Ramos) e termina no Grande Domingo da Ressurreição. A Igreja Maronita está em comunhão com Roma e segue a data gregoriana da Páscoa, portanto as datas coincidem com o calendário católico romano. Em 2027, a Semana Santa vai de 21 a 28 de março; em 2028, de 9 a 16 de abril.
Quais são as tradições do Sabt al-Noor?
Sabt al-Noor, o Sábado da Luz, é celebrado com a Cerimônia da Luz na igreja escurecida, com um prolongado Rito da Paz com a saudação "al-Masih qam, haqqan qam" (Cristo ressuscitou, verdadeiramente ressuscitou) e com a quebra do Grande Jejum. Em casa, as famílias tradicionalmente acendem uma vela a partir da chama da igreja e a mantêm acesa a noite toda até a manhã de Páscoa. Biscoitos ma'amoul e ovos tingidos de vermelho são preparados para a oitava que se segue.
Como a Sexta-feira Santa maronita difere da romana?
Ambas as tradições guardam a Sexta-feira Santa como um dia de jejum estrito e de Adoração da Cruz. O rito maronita acrescenta o Taqs al-Dafn, o Rito do Sepultamento, no qual uma imagem em tecido ou estátua do Cristo crucificado é colocada em um andor coberto de flores e conduzida em procissão. O antigo hino siríaco Shubho Lo'yad é cantado. O costume libanês mais antigo também mantém um jejum mais estrito, tradicionalmente apenas água até o pôr do sol, embora essa forma mais rigorosa não seja atualmente obrigatória.
O que é o Rito Maronita da Signação?
O Rito da Signação (Taqs al-Sharh), às vezes chamado de ofícios da Pshitto, é um conjunto de meditações contemplativas da Paixão celebradas nas noites de segunda, terça e quarta-feira da Semana Santa na tradição maronita. São ofícios de canto, Escritura e oração silenciosa que conduzem os fiéis pelos momentos tradicionais da Paixão, desde a unção em Betânia até o sepultamento. A lista exata dos sinais varia de paróquia para paróquia e de livro litúrgico para livro litúrgico.
Os maronitas celebram a Páscoa no mesmo dia dos outros católicos?
Sim. A Igreja Maronita está em plena comunhão com Roma e segue a data gregoriana da Páscoa. Em anos em que o calendário gregoriano e o juliano coincidem, os maronitas e os cristãos ortodoxos orientais também celebram no mesmo dia, mas isso é coincidência, não regra. A Páscoa maronita, a Páscoa romana e a maioria das Páscoas católicas orientais compartilham uma única data por ano.
Veja também: A Grande Quaresma Maronita. A Divina Liturgia Maronita (Qurbono). O calendário litúrgico maronita. A tradição maronita. A festa de São Charbel.