O Líbano na Bíblia
O Líbano é mencionado por nome cerca de setenta e uma vezes na Bíblia hebraica. Seus Cedros se erguem nos Salmos e sustentam as vigas do Templo de Salomão. Suas cidades costeiras, Tiro e Sidon, são objeto de algumas das passagens proféticas mais poderosas da Escritura. Jesus mesmo cruzou até a região de Tiro e Sidon, e a única viagem evangélica fora da Terra Santa aconteceu ali. Paulo, a caminho de Jerusalém e Roma, desembarcou duas vezes na costa libanesa.
O que segue é um guia sobre o Líbano na Bíblia, do Antigo e do Novo Testamento. A Escritura passa pelo Líbano não como digressão, mas como presença recorrente. O fio corre do Gênesis aos Atos e, através das primeiras comunidades cristãs da costa fenícia, direto para o patrimônio maronita que vive no Líbano hoje — e que se estende à comunidade libanesa em São Paulo e no restante do Brasil.
Quantas vezes o Líbano aparece na Bíblia?
A contagem direta de "Líbano" na Bíblia hebraica é aproximadamente setenta e uma, dependendo da tradição manuscrita e do método de contagem. Os Cedros do Líbano acrescentam cerca de setenta e cinco outras. Tiro é mencionada em dezenas de passagens ao longo dos livros históricos, dos Salmos e dos profetas; Sidon, em outras tantas. Biblos, chamada Gebal em hebraico, aparece em 1 Reis 5,18, Ezequiel 27,9 e em outros trechos.
Nenhuma região fora de Israel e do Egito tem uma pegada bíblica tão densa. Para os antigos israelitas, o Líbano era o horizonte norte, a fonte da madeira, o lar de uma civilização comercial que às vezes se aliava a eles e às vezes ficava à parte.
O Líbano como fronteira norte da Terra Prometida
Em Deuteronômio 11,24 e Josué 1,4, o Líbano é dado como a orla norte do território prometido a Israel: Do deserto e do Líbano até o grande rio, o rio Eufrates. A cordilheira forma o quadro natural da terra. Aparece depois nos profetas e nos salmos como marcador geográfico permanente: o Líbano está onde sempre esteve, ao norte.
Os Cedros: força, retidão e o Templo de Salomão
Os Cedros do Líbano são um dos grandes símbolos bíblicos de força e resistência. Os Salmos os elevam diretamente:
A voz do Senhor quebra os cedros, o Senhor quebra os cedros do Líbano. (Salmo 29,5)
O justo florescerá como a palmeira, crescerá como um cedro no Líbano. (Salmo 92,12)
Seu papel mais decisivo está na construção do Templo de Salomão. 1 Reis 5 registra a aliança entre Salomão e Hirão, rei de Tiro, para o fornecimento da madeira de cedro:
Os meus servos trarão a madeira do Líbano até o mar, e eu farei dela jangadas para irem por mar até o lugar que indicares. (1 Reis 5,9)
O Templo, estrutura central do culto israelita, ergueu-se sobre as florestas de cedro do Líbano. Por quase mil anos, até a destruição do Templo, cada sacerdote que entrava no santuário caminhava entre madeira libanesa. Veja nosso artigo sobre os Cedros de Deus para o significado bíblico e atual do bosque que sobrevive em Bsharri.
"O perfume do Líbano": o Cântico dos Cânticos
O Cântico dos Cânticos retorna ao Líbano repetidamente, como imagem e como aroma. A esposa é interpelada:
Vem comigo do Líbano, minha esposa; vem comigo do Líbano. (Cânticos 4,8)
O perfume das tuas vestes é como o perfume do Líbano. (Cânticos 4,11)
Fonte de jardim, poço de águas vivas e regatos que correm do Líbano. (Cânticos 4,15)
O Líbano, no Cântico dos Cânticos, é lugar de beleza, frescor e desejo. A leitura mística do Cântico, seguida pelos Padres do Oriente e do Ocidente, lê a esposa como a alma e o Líbano como as alturas da intimidade divina.
Os profetas sobre Tiro e Sidon
Tiro e Sidon, as grandes cidades fenícias na costa libanesa, foram impérios comerciais. Tiro em particular tornou-se símbolo de riqueza, beleza e orgulho. Os profetas retornam a ela repetidamente.
A mais magnífica é Ezequiel 27, o longo lamento sobre Tiro:
Ó Tiro, tu disseste: Eu sou perfeita em beleza. Teus limites estão no coração dos mares, teus construtores aperfeiçoaram tua beleza. Fizeram todas as tuas pranchas de ciprestes de Senir; tomaram um cedro do Líbano para te fazer um mastro. (Ezequiel 27,3–5)
Ezequiel imagina Tiro como um navio de madeira libanesa, revestido de marfim e púrpura, singrando os mares até que o vento leste o quebra no coração das águas. A passagem, junto com Ezequiel 28 (o oráculo contra o rei de Tiro), é um dos altos momentos poéticos da profecia hebraica.
Isaías fala da ascensão e queda de Tiro (Isaías 23). Amós 1,9–10 pronuncia um oráculo contra Tiro. Joel 3,4 inclui Tiro, Sidon e todas as costas da Filístia no juízo vindouro. O quadro traçado nos profetas é o de cidades ricas cuja glória é real, cujo orgulho é maior e cuja queda o Senhor prevê.
A viúva de Sarepta: Elias em Sidon
Durante a grande seca sob o rei Acab e a rainha Jezabel, o profeta Elias é orientado por Deus a deixar Israel e ir para o norte, a Sidon:
Levanta-te, vai a Sarepta, que pertence a Sidon, e habita ali. Eis que ordenei a uma viúva ali que te sustente. (1 Reis 17,9)
Sarepta é a moderna Sarafand, na costa libanesa entre Tiro e Sidon. Ali Elias encontra uma viúva gentia, uma mulher fenícia, que reparte com o profeta a última porção de farinha e azeite. O pote de farinha não se esgota. A vasilha de azeite não falha. Quando o filho da viúva morre, Elias o ressuscita (1 Reis 17,17–24).
Jesus retoma a história séculos depois:
Havia muitas viúvas em Israel nos dias de Elias... e Elias não foi enviado a nenhuma delas, senão à viúva de Sarepta, na terra de Sidon. (Lucas 4,25–26)
A viúva de Sidon a acolher o profeta na seca torna-se sinal da graça de Deus alcançando para além de Israel. É um tema que Jesus retomará em pessoa quando ele mesmo entrar na região de Tiro e Sidon.
Jesus na região de Tiro e Sidon
Mateus 15 e Marcos 7 registram a única viagem de Jesus que claramente atravessa o que hoje é o Líbano.
Jesus deixou aquele lugar e retirou-se para as regiões de Tiro e Sidon. E eis que uma mulher cananeia, vinda daquela região, gritava: Tem misericórdia de mim, Senhor, Filho de Davi; minha filha está gravemente atormentada por um demônio. (Mateus 15,21–22)
Marcos a chama siro-fenícia de nascimento (Marcos 7,26). Ambos os evangelistas registram o diálogo que se segue. Jesus diz: Não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorros. Ela responde:
Sim, Senhor, mas até os cachorros debaixo da mesa comem as migalhas dos filhos. (Marcos 7,28)
Jesus louva sua fé: Ó mulher, grande é a tua fé! Faça-se contigo como desejas. Sua filha é curada. Ela é, na memória cristã do Líbano, a primeira cristã libanesa.
Marcos 7,31 acrescenta: Então, ele voltou da região de Tiro e, passando por Sidon, foi para o Mar da Galileia. A viagem leva Jesus da Galileia pela costa fenícia até Tiro, para o interior e ao norte até Sidon, e depois de volta para o sul — um circuito de vários dias pelo que é hoje o litoral libanês e os acessos ao Vale do Beca.
"Ai de ti, Corazin... Tiro e Sidon teriam se convertido"
Em uma reviravolta surpreendente, Jesus em outro momento apresenta as cidades pagãs fenícias como moralmente mais capazes de conversão do que as cidades galileias nas quais realizara seus mais poderosos milagres:
Ai de ti, Corazin! Ai de ti, Betsaida! Porque, se em Tiro e em Sidon se tivessem realizado os milagres que se fizeram em vós, há muito tempo teriam feito penitência em cilício e cinzas. (Mateus 11,21; Lucas 10,13)
Tiro e Sidon, condenadas pelos profetas pelo orgulho e pela riqueza, recebem uma espécie de respeito angustiado. As cidades judaicas que tinham ouvido a pregação de Jesus e visto seus milagres recebem a palavra mais dura. O Líbano, nessa passagem, torna-se espelho no qual a Galileia é chamada a se olhar.
Paulo passa por Tiro e Sidon
A Igreja primitiva logo teve comunidades na costa libanesa. Atos 21,3–7 registra a viagem de Paulo a Jerusalém:
Quando avistamos Chipre, deixando-a à esquerda, navegamos para a Síria e desembarcamos em Tiro, pois ali o navio devia descarregar sua carga. Encontrando os discípulos, ficamos ali sete dias. (Atos 21,3–4)
Paulo passa uma semana com os cristãos de Tiro. Eles o advertem contra ir a Jerusalém. Quando parte, o acompanham para fora da cidade com suas mulheres e filhos, ajoelham-se com ele na praia e rezam (Atos 21,5). É uma das cenas mais comoventes dos Atos, e acontece na costa libanesa.
Atos 27,3 acrescenta outra parada. Na viagem que terminará em naufrágio em Malta e chegará por fim a Roma, o navio atraca em Sidon: E Júlio tratou Paulo com humanidade, permitindo-lhe ir a seus amigos para ser bem cuidado. Paulo tinha amigos em Sidon. A comunidade cristã de lá já lhe era familiar.
Do Líbano bíblico à Igreja Maronita
O fio entre o Líbano bíblico e a Igreja Maronita é ininterrupto. As cidades fenícias em que Paulo encontrou discípulos tornaram-se centros cristãos primitivos. O Cristianismo se espalhou pelas montanhas libanesas nos séculos III e IV. Ascetas e eremitas de língua siríaca, seguindo o padrão de São Maron, estabeleceram-se nos vales onde os Cedros ainda cresciam. A comunidade que se formou em torno da tradição de Maron tornou-se a Igreja Maronita.
O Patriarcado Maronita é denominado "de Antioquia e de todo o Oriente". Antioquia fica logo ao norte das montanhas libanesas, onde Paulo e Barnabé haviam pregado. O Líbano é, em sentido literal, a paisagem do Novo Testamento ainda habitada por cristãos que ali estão, em sucessão ininterrupta, desde a era apostólica. Nosso artigo sobre a tradição maronita leva essa história adiante — história que continua viva também em São Paulo, na maior comunidade maronita fora do Líbano.
Perguntas frequentes
Quantas vezes o Líbano é mencionado na Bíblia?
O Líbano é mencionado por nome aproximadamente setenta e uma vezes na Bíblia hebraica (o Antigo Testamento). Isso conta apenas referências diretas ao "Líbano". O número sobe consideravelmente quando referências indiretas são incluídas: os Cedros do Líbano (cerca de setenta e cinco menções), Tiro e Sidon como cidades fenícias no Líbano, Biblos (chamada Gebal em hebraico) e os cananeus da costa. A presença do Líbano na Bíblia está entre as mais persistentes de qualquer região fora do próprio Israel.
Jesus alguma vez foi ao Líbano?
Sim. Mateus 15,21–28 e Marcos 7,24–30 registram que Jesus se retirou para a região de Tiro e Sidon — isto é, o atual Líbano. Ali curou a filha de uma mulher siro-fenícia (ou cananeia) cuja fé ele louvou. Marcos 7,31 acrescenta que ele retornou da região de Tiro passando por Sidon rumo ao Mar da Galileia. É a única viagem de Jesus registrada nos Evangelhos que claramente o leva para fora do que é hoje a Terra Santa.
O que é o Cedro do Líbano na Bíblia?
O Cedro do Líbano é uma árvore de enorme peso simbólico na Bíblia. Aparece em mais de setenta passagens como sinal de força, retidão e resistência. O Templo de Salomão foi construído com madeira de cedro do Líbano (1 Reis 5–6). Os Salmos comparam o justo ao cedro (Salmo 92,12), e os profetas usam o cedro para descrever a queda de impérios (Ezequiel 31). O cedro permanece na bandeira libanesa até hoje.
Quem foi a mulher siro-fenícia?
A mulher siro-fenícia (Marcos 7,26), também chamada cananeia (Mateus 15,22), era uma gentia da região de Tiro e Sidon cuja filha estava atormentada. Aproximou-se de Jesus e pediu que curasse sua filha. Quando Jesus a provou com o dito sobre o pão dos filhos e os cachorros, ela respondeu: "Até os cachorros debaixo da mesa comem as migalhas dos filhos." Jesus disse: "Ó mulher, grande é a tua fé!" e curou a filha. Ela é, na memória cristã, a primeira cristã libanesa.
Tiro e Sidon ficam no Líbano hoje?
Sim. Tiro (moderna Sour) e Sidon (moderna Saida) são cidades costeiras do sul do Líbano, cerca de 40 km separadas no Mediterrâneo. Ambas continuam habitadas. As ruínas de Tiro incluem hipódromos e necrópoles romanas inscritas como Patrimônio Mundial da UNESCO. Sidon conserva seu castelo cruzado no mar e os antigos souks. Há paróquias maronitas em ambas as cidades, ao lado de comunidades melquitas, sunitas, xiitas e outras.
Veja também: Os Cedros de Deus. Vale de Qadisha. Nossa Senhora do Líbano. São Maron. São Charbel. A tradição maronita. O Cristianismo Oriental. Cristãos do Oriente Médio. A língua aramaica de Jesus.