Cristãos do Oriente Médio
O Cristianismo nasceu no Oriente Médio. Os primeiros seguidores de Jesus pregaram em Jerusalém, Antioquia, Alexandria e nas aldeias de língua aramaica do Levante. A palavra "cristão" foi usada pela primeira vez em Antioquia, na costa do que hoje é o sul da Turquia. Dois mil anos depois, os descendentes dessas primeiras comunidades cristãs ainda vivem em toda a região, celebrando o culto em Igrejas cujas liturgias, línguas e tradições remontam aos primeiros séculos da fé.
Para muitos ocidentais, o Cristianismo do Oriente Médio é um mundo desconhecido. O número de Igrejas distintas, línguas e termos históricos pode ser desconcertante: maronita, copta, siríaco, armênio, caldeu, melquita, assírio. Cada uma tem sua própria liturgia, seus próprios santos e seu próprio caminho ao longo dos séculos. O que as une é uma origem comum na era apostólica e uma presença contínua nas terras onde a Bíblia foi escrita.
Este guia oferece uma introdução clara aos Cristãos do Oriente Médio: quem são, a que Igrejas pertencem, onde vivem hoje e por que sua história importa para quem se interessa pela história do Cristianismo. Vale lembrar que a comunidade libanesa em São Paulo e no restante do Brasil é herdeira direta dessa tradição.
As origens: de Jerusalém a Antioquia
A primeira comunidade cristã reuniu-se em Jerusalém após a ressurreição de Jesus. Os primeiros discípulos eram seguidores judeus, que continuavam a rezar no Templo enquanto também partiam o pão em suas casas. Em uma geração, comunidades cristãs se estenderam pelas rotas comerciais até Antioquia, capital síria e terceira maior cidade do Império Romano. Os Atos dos Apóstolos registram que "foi em Antioquia que os discípulos foram chamados cristãos pela primeira vez" (Atos 11,26).
Antioquia tornou-se uma das cinco grandes sedes patriarcais do Cristianismo primitivo, ao lado de Jerusalém, Alexandria, Constantinopla e Roma. De Antioquia, a fé se espalhou para o norte, pela Ásia Menor, para o leste, pela Mesopotâmia e pela Pérsia, e para o sul, pela Arábia. Alexandria, no Egito, tornou-se outro grande centro, sede de uma escola de saber cristão que produziu teólogos como Orígenes, Atanásio e Cirilo.
No século IV, o Cristianismo tornou-se a religião do Império Romano. No Oriente Médio, o monasticismo emergiu como movimento definidor. Eremitas retiraram-se para os desertos do Egito, da Palestina e da Síria para viver vidas de oração e ascese. Figuras como Antônio do Egito, Pacômio, Efrém, o Sírio, e Maron — o eremita do vale do Orontes — moldaram a paisagem espiritual do que viria a ser as Igrejas Orientais.
As divisões teológicas do século V
Para entender a variedade das Igrejas Orientais hoje, ajuda conhecer dois concílios que causaram divisões duradouras: o Concílio de Éfeso (431) e o Concílio de Calcedônia (451). Esses concílios debateram como a divindade e a humanidade de Cristo se relacionam. As formulações precisas eram técnicas, mas as consequências moldaram o mapa do Cristianismo do Oriente Médio pelos 1.500 anos seguintes.
Depois de Éfeso, a Igreja do Oriente (às vezes chamada Igreja Assíria) separou-se, rejeitando a condenação de Nestório pelo concílio. Essa Igreja, sediada na Mesopotâmia e na Pérsia, mais tarde enviaria missionários até a Índia e a China.
Depois de Calcedônia, ocorreu uma divisão maior. As Igrejas Ortodoxas Orientais — Copta, Siríaca Ortodoxa, Apostólica Armênia e Etíope — rejeitaram a definição calcedoniana e seguiram seu próprio caminho. As Igrejas que aceitaram Calcedônia tornaram-se o que hoje chamamos de Ortodoxas Orientais (a tradição bizantina) e, por fim, após o cisma de 1054, a Igreja Católica Romana no Ocidente.
No segundo milênio, várias Igrejas Orientais entraram em comunhão com Roma mantendo suas próprias liturgias, línguas e tradições canônicas. São as Igrejas Católicas Orientais: Maronita, Melquita, Caldeia, Católica Armênia, Siríaca Católica e Católica Copta. A Igreja Maronita é única por nunca ter rompido formalmente a comunhão com Roma, característica única entre as Igrejas Orientais.
As principais Igrejas Cristãs do Oriente Médio
Igreja Católica Maronita
A Igreja Maronita remonta ao eremita do século IV São Maron e a seus discípulos no vale do Orontes. Seus fiéis instalaram-se nas montanhas do Líbano, onde desenvolveram uma cultura monástica distinta. A liturgia maronita é celebrada em siríaco, árabe e, cada vez mais, nas línguas locais da diáspora. A Igreja Maronita está em plena comunhão com Roma desde pelo menos o século XII, e considera essa comunhão ininterrupta.
Hoje, a Igreja Maronita tem sede em Bkerké, no Líbano, e é liderada por um Patriarca. O Líbano abriga aproximadamente 1,5 milhão de maronitas, mas uma diáspora muito maior — possivelmente 10 milhões ou mais — vive por todo o mundo, especialmente nos Estados Unidos, no Brasil, na França, Austrália, Canadá, Argentina e África Ocidental. O Brasil, com sua vibrante comunidade libanesa em São Paulo, guarda uma das expressões mais vivas dessa herança.
Igreja Ortodoxa Copta
A Igreja Ortodoxa Copta é a maior comunidade cristã do Oriente Médio, com cerca de 10 milhões de fiéis no Egito. Suas origens remontam a São Marcos Evangelista, tradicionalmente identificado como fundador da Igreja de Alexandria. A liturgia copta é celebrada em copta, descendente direto da antiga língua egípcia, ao lado do árabe. Os coptas produziram alguns dos primeiros santos monásticos do Cristianismo, entre eles Antônio e Pacômio.
A Igreja Católica Copta, em comunhão com Roma, é muito menor e está sediada principalmente no Egito.
Igreja Greco-Ortodoxa de Antioquia
O Patriarcado Greco-Ortodoxo de Antioquia, sediado em Damasco, representa a tradição ortodoxa bizantina no mundo árabe. Apesar do nome "grego", sua liturgia é celebrada hoje principalmente em árabe, e a maioria de seus fiéis são cristãos árabes da Síria, do Líbano, da Jordânia e da Palestina. Continua sendo uma das maiores comunidades cristãs do Levante.
Igreja Melquita Greco-Católica
A Igreja Católica Melquita compartilha a tradição litúrgica bizantina da Igreja Greco-Ortodoxa, mas entrou em comunhão com Roma no século XVIII. Seus fiéis concentram-se na Síria, no Líbano, na Jordânia, na Palestina e em suas diásporas. O Patriarca Melquita reside em Damasco.
Igrejas Siríacas
A Igreja Ortodoxa Siríaca (também chamada Igreja Ortodoxa Síria ou Jacobita) e a Igreja Católica Siríaca ambas preservam o uso litúrgico do siríaco, o dialeto do aramaico falado na antiga cidade de Edessa. Sua liturgia, o Rito Siríaco Ocidental, é a mesma usada pela Igreja Maronita. Há fiéis na Síria, no Líbano, no Iraque, na Turquia e na diáspora global.
Igreja Apostólica Armênia
A Igreja Apostólica Armênia atribui sua fundação ao primeiro século e à obra missionária dos apóstolos Tadeu e Bartolomeu. A Armênia foi o primeiro Estado a adotar o Cristianismo como religião oficial, em 301 d.C. A Igreja Armênia tem sua própria língua litúrgica (o armênio clássico) e seu próprio rito. Grandes populações cristãs armênias vivem no Líbano, na Síria e em diásporas por todo o mundo, com a Igreja Católica Armênia sediada em Bzommar, no Líbano.
Igreja Católica Caldeia e Igreja Assíria do Oriente
A Igreja Católica Caldeia, em comunhão com Roma, e a Igreja Assíria do Oriente são herdeiras da antiga Igreja do Oriente, que floresceu na Mesopotâmia e na Pérsia. Usam a tradição litúrgica siríaca oriental e celebram a Liturgia de Addai e Mari, uma das mais antigas orações eucarísticas em uso contínuo. Historicamente concentradas no Iraque, suas comunidades foram profundamente afetadas pelas guerras e convulsões das últimas duas décadas.
Os Cristãos do Oriente Médio hoje
Os Cristãos do Oriente Médio hoje vivem em uma região transformada por conflitos, migração e mudanças sociais. No início do século XX, os cristãos representavam cerca de 20% da população total do Oriente Médio. Hoje, o número está mais próximo de 4%, e em vários países a comunidade diminuiu drasticamente.
Egito: abriga a maior população cristã da região — cerca de 10 milhões, em sua maioria coptas ortodoxos. Apesar de dificuldades periódicas, a comunidade permanece profundamente enraizada e culturalmente ativa.
Líbano: os cristãos representam cerca de um terço da população, a maior proporção do Oriente Médio. O país é único porque seu sistema político reserva a presidência a um cristão maronita. O Líbano tem uma maioria maronita entre os cristãos, ao lado de importantes comunidades greco-ortodoxas, greco-católicas e armênias.
Síria: antes da guerra civil que começou em 2011, os cristãos somavam cerca de 1,5 milhão, aproximadamente 10% da população. Muitos emigraram desde então. A comunidade remanescente inclui fiéis greco-ortodoxos, greco-católicos, siríacos, armênios e maronitas.
Iraque: o Iraque tinha cerca de 1,5 milhão de cristãos em 2003. Após duas décadas de guerra e a ascensão e queda do Estado Islâmico, estima-se que a comunidade esteja bem abaixo de 250 mil, com muitos dos que permanecem concentrados nas Planícies de Nínive e no Curdistão.
Jordânia, Palestina, Israel: os três têm comunidades cristãs antigas. Os cristãos jordanianos somam cerca de 250 mil e incluem greco-ortodoxos, melquitas e católicos latinos. Os cristãos palestinos vivem principalmente em Belém, Jerusalém e na região da Galileia. Seu total na Terra Santa caiu para menos de 200 mil.
Turquia: outrora sede de uma grande população cristã grega e armênia, a Turquia hoje tem apenas cerca de 150 mil cristãos, concentrados sobretudo em Istambul e no sudeste do país. O Patriarcado Ecumênico de Constantinopla permanece em Istambul.
Por que o Cristianismo do Oriente Médio importa
As comunidades cristãs do Oriente Médio são elos vivos com os primeiros séculos da fé. Elas preservam línguas — aramaico, siríaco, copta, armênio — que outrora foram as línguas dos primeiros cristãos. Celebram liturgias cujas orações centrais foram escritas antes do Credo de Niceia. Veneram santos, eremitas e monges cuja vida moldou a espiritualidade da Igreja universal.
Para católicos, ortodoxos e protestantes, os Cristãos do Oriente Médio não são uma curiosidade histórica. São o testemunho contínuo de uma forma de Cristianismo mais antiga do que a divisão entre Oriente e Ocidente, mais antiga do que muitas das controvérsias teológicas do Ocidente, e mais próxima em geografia e língua do mundo do Novo Testamento do que qualquer outra comunidade cristã.
Sua situação é frágil. Emigração, guerra e dificuldades econômicas reduziram seus números em grande parte da região. Mas o Cristianismo do Oriente Médio também tem uma diáspora vasta e crescente — de Detroit a São Paulo, de Sydney a Paris — que leva as tradições das Igrejas Orientais a novas gerações em novas terras. A tradição maronita, o Cristianismo Oriental e as orações dos padres do deserto continuam a moldar a vida cristã em todo o mundo. No Brasil, a herança libanesa-cristã segue viva em paróquias, festas e famílias.
Perguntas frequentes
Quem são os Cristãos do Oriente Médio?
Os Cristãos do Oriente Médio são as comunidades cristãs autóctones da região onde o Cristianismo nasceu. Incluem maronitas, coptas, siríacos, armênios, assírios, caldeus, greco-ortodoxos, greco-católicos (melquitas), católicos armênios e outros. A maioria pertence a Igrejas Orientais cujas tradições litúrgicas e línguas remontam aos primeiros séculos da fé. Fazem parte da Igreja Católica, das Igrejas Ortodoxas Orientais, das Igrejas Ortodoxas Orientais (não calcedonianas) ou da Igreja Assíria do Oriente.
Que língua Jesus falava?
Jesus falava aramaico, uma língua semítica intimamente aparentada com o hebraico. O aramaico era a língua cotidiana da Judeia, da Galileia e de todo o Levante no primeiro século. O siríaco, a língua litúrgica de várias Igrejas do Oriente Médio (maronita, siríaca ortodoxa, siríaca católica, assíria, caldeia), é um dialeto posterior do aramaico e preserva muitas das palavras e frases que o próprio Jesus teria usado.
Qual é a Igreja cristã mais antiga do mundo?
As Igrejas do Oriente Médio remontam todas à era apostólica, sendo as mais antigas comunidades cristãs contínuas do mundo. A Igreja de Antioquia (Síria) é onde os discípulos foram chamados cristãos pela primeira vez e deu origem às tradições siríaca, maronita e melquita. A Igreja de Alexandria foi fundada por São Marcos. A Igreja Apostólica Armênia atribui sua fundação ao primeiro século, por meio dos apóstolos Tadeu e Bartolomeu.
Qual país tem o maior número de cristãos no Oriente Médio?
O Egito tem a maior população cristã em números absolutos, estimada em cerca de 10 milhões, em sua maioria coptas ortodoxos. O Líbano tem a maior proporção de cristãos em relação à população total, com cristãos representando aproximadamente um terço do país. Iraque, Síria, Jordânia, Palestina e Israel também têm importantes comunidades cristãs autóctones, embora várias tenham diminuído devido a conflitos e emigração.
Os Cristãos do Oriente Médio são católicos ou ortodoxos?
Ambos. A região inclui Igrejas Ortodoxas Orientais (Copta, Siríaca Ortodoxa, Apostólica Armênia), Igrejas Ortodoxas Bizantinas (Greco-Ortodoxas de Antioquia, Jerusalém, Alexandria), Igrejas Católicas Orientais em comunhão com Roma (Maronita, Melquita, Caldeia, Católica Armênia, Siríaca Católica, Católica Copta) e a Igreja Assíria do Oriente. Católicos latinos (romanos) e várias comunidades protestantes também têm presença histórica, particularmente em Jerusalém e em Beirute.
Os Cristãos do Oriente Médio ainda falam aramaico?
Um pequeno número ainda fala dialetos modernos do aramaico (neo-aramaico) na vida cotidiana, particularmente em algumas aldeias da Síria, como Ma'loula, entre comunidades assírias no Iraque e nas Planícies de Nínive, e em comunidades da diáspora. De modo mais amplo, o aramaico em sua forma litúrgica — o siríaco — permanece a língua do culto para as Igrejas Maronita, Siríaca Ortodoxa, Siríaca Católica, Assíria e Caldeia. Os coptas, do mesmo modo, usam o copta, descendente direto da antiga língua egípcia, em sua liturgia.
Veja também: O Cristianismo Oriental. A Tradição Maronita. São Charbel. São Maron. O Vale de Qadisha.