A Parábola do Grão de Mostarda
É a mais curta das grandes parábolas, com apenas dois versículos, e gira em torno de uma única surpresa. Perguntado como é o Reino de Deus, Jesus não busca nada de grandioso. Busca a menor semente que os seus ouvintes conheciam.
"O Reino dos céus é como um grão de mostarda que um homem tomou e semeou no seu campo. É a menor de todas as sementes, mas, quando cresce, é maior do que as hortaliças e se torna uma árvore, de modo que as aves do céu vêm e fazem ninhos nos seus ramos." Mateus, Marcos e Lucas a registram, e em dois dos três Evangelhos Jesus a emparelha com o fermento escondido na massa: duas imagens de algo quase invisível que vai silenciosamente tomando conta de tudo.
Ele não escolheu o cedro
Eis o que um ouvinte embebido nas Escrituras teria notado de imediato. Quando os profetas queriam uma imagem de majestade, tinham uma árvore pronta. O cedro do Líbano atravessa o Antigo Testamento como o próprio retrato da glória: os justos florescem como ele no Salmo 92, Salomão construiu o Templo com ele e, em Ezequiel 17, o próprio Deus promete plantar um broto de cedro num monte alto, onde ele se tornará uma árvore nobre e toda ave fará ninho na sua sombra.
Jesus claramente conhece essa profecia. Termina a sua parábola com a imagem exata dela, as aves do céu fazendo ninho nos ramos. Mas onde Ezequiel tem um cedro nas alturas de Israel, Jesus põe um arbusto de mostarda no campo de um lavrador. Mantém a promessa e troca a árvore.
Essa troca é o sermão inteiro. O Reino de Deus não chegaria como o Líbano aparece na Bíblia, como majestade imponente e inconfundível. Chegaria como algo que se poderia perder entre dois dedos: um nascimento camponês num estábulo, doze homens pouco impressionantes, um rabi crucificado, um rumor de túmulo vazio. A glória do cedro nunca foi cancelada. Foi escondida dentro da menor semente, para ser revelada crescendo.
O que significa a parábola do Grão de Mostarda
O primeiro sentido diz respeito ao modo de agir de Deus. Ele começa pequeno de propósito. Um grão de mostarda não pede nada ao olhar; não há espetáculo nele, nada para aplaudir. Toda a sua grandeza está dentro, invisível, e só é libertada pelo sepultamento. Os padres do Oriente ouviram o próprio Evangelho nesse detalhe: a semente entra na terra, morre para a sua pequenez e se levanta como abrigo para as aves do céu, que a tradição leu como as nações do mundo encontrando descanso nos ramos da Igreja.
O segundo sentido diz respeito ao tempo. Entre a semente e a árvore está o crescimento, que é lento, quase todo oculto e impossível de ver acontecendo. Jesus nunca mostra o meio da história; nenhuma parábola descreve a sexta semana da planta de mostarda. Esse silêncio é uma gentileza para todos os que rezam e não veem nada mudar. O Reino cresce como as sementes crescem, primeiro debaixo da terra, e os dias em que nada parece acontecer são os dias em que as raízes descem.
O terceiro sentido é uma advertência contra medir a obra de Deus pelo seu tamanho atual. Toda geração é tentada a pesar o Reino pelo que se pode contar neste ano. A parábola diz que a aritmética do céu segue outra curva e que o único momento justo para julgar uma semente é a colheita, uma paciência que esta parábola compartilha com a parábola do Semeador, ao seu lado.
Uma Igreja de grão de mostarda
Os maronitas têm razões particulares para confiar nesta parábola, porque toda a sua história tem a sua forma. A Igreja Maronita não começou numa capital, mas em torno da memória de um eremita, São Maron, um homem que deixou tudo para rezar no topo de uma colina na Síria. Depois da sua morte, no século V, uma pequena comunidade se reuniu em seu nome, foi dispersada pela perseguição e se refugiou nos vales altos do Monte Líbano, cultivando terraços e escavando mosteiros na rocha da garganta de Qadisha.
Durante séculos essa foi a história inteira: uma pequena Igreja de montanha, muitas vezes isolada, muitas vezes sob pressão, guardando as suas orações siríacas como uma brasa protegida entre duas mãos. Ninguém que observasse teria previsto o que viria. Hoje as paróquias maronitas estão em Sydney e São Paulo, Paris e Cidade do México, Detroit e Buenos Aires, e os descendentes daquelas aldeias de montanha são contados aos milhões em todos os continentes. A memória de um eremita se tornou uma comunhão de nações. As aves do céu vieram e encontraram ramos.
E dentro dessa história há outra menor, ainda mais comprimida. Em 1875, um monge chamado Charbel Makhlouf subiu a um eremitério acima do mosteiro de Annaya e, por vinte e três anos, não fez nada que o mundo chamaria de importante. Rezou, cuidou da horta e guardou silêncio. Morreu na véspera de Natal de 1898, desconhecido fora do seu vale. Se a santidade fosse medida como madeira, a sua vida não era um cedro; era uma semente, enterrada em solo de montanha.
Depois cresceu. A luz vista no seu túmulo, as curas, os peregrinos, os milhões que hoje pedem as suas orações de todos os cantos da terra: tudo isso saiu de uma vida oculta que possuía dois livros e um hábito. Ninguém planeja uma colheita assim. É simplesmente o que esta parábola diz que o Reino faz.
Fé do tamanho de uma semente, entre montanhas de verdade
O grão de mostarda volta mais uma vez nos Evangelhos, numa palavra sobre a fé. "Se vocês tiverem fé como um grão de mostarda", diz Jesus aos discípulos, "dirão a este monte: 'Passe daqui para lá', e ele passará; e nada será impossível para vocês."
Quem reza entre montanhas de verdade ouve essa palavra de outro modo. No Líbano, a montanha não é paisagem; é o fato em torno do qual toda a vida se curva, o muro entre vilarejos, a realidade mais antiga do que todo império que falhou em dominá-la. Dizer que uma semente de fé pesa mais do que ela é dizer algo audacioso sobre a confiança: que o menor apoio genuíno em Deus liga você a uma força desproporcional à sua própria.
O que é boa notícia, porque a maior parte da fé parece do tamanho de uma semente por dentro. A parábola e a palavra concordam nisto: Deus nunca exigiu fé impressionante, apenas fé real. Pequena e plantada vence grande e imaginária, sempre.
Rezando com esta parábola
Reze esta parábola quando o que você tem parecer pequeno demais para importar: uma fé que cabe numa frase, um hábito de oração de cinco minutos, uma vela acesa por uma intenção. Leia Marcos 4,30-32 devagar e depois nomeie a sua semente diante de Deus, sem pedir desculpas pelo tamanho. Foi ele quem escolheu o grão de mostarda de propósito.
Depois peça a graça que a parábola exige em silêncio: paciência com o crescimento oculto. Plante a coisa pequena, a oração diária, o gesto de bondade, o jejum feito em segredo, e recuse-se a desenterrá-la toda semana para ver o progresso. Se precisar de um lugar para começar, comece como Charbel começou, com uma breve oração rezada com fidelidade num lugar comum, e deixe uma oração a São Charbel ser a sua semente nesta estação. O crescimento não é obra sua. O plantio é.
Perguntas frequentes
Qual é o significado da parábola do Grão de Mostarda?
Que o Reino de Deus começa menor do que qualquer um espera e cresce além de qualquer previsão. Jesus escolheu de propósito a menor semente que um lavrador da Galileia manuseava, e não uma árvore majestosa, para dizer que a obra de Deus costuma começar em inícios ocultos e pouco impressionantes e se torna, com o tempo, abrigo para muitos.
Onde está a parábola do Grão de Mostarda na Bíblia?
Aparece em três Evangelhos: Mateus 13, versículos 31 e 32, Marcos 4, versículos 30 a 32, e Lucas 13, versículos 18 e 19. Em Mateus e Lucas está emparelhada com a parábola do fermento, outra imagem de algo pequeno transformando silenciosamente algo grande.
A mostarda é realmente a menor semente?
Botanicamente há sementes menores, mas Jesus não estava dando uma aula de botânica. Entre as sementes que um lavrador da Galileia semeava, a mostarda era proverbialmente a menor; "pequeno como um grão de mostarda" era uma expressão comum. A parábola usa o provérbio cotidiano dos seus ouvintes para fazer o seu ponto: o contraste entre um começo quase invisível e um arbusto grande o bastante para as aves fazerem ninho.
O que significam as aves fazendo ninho nos ramos?
A imagem ecoa os profetas, especialmente Ezequiel 17 e Daniel 4, onde uma grande árvore abriga as aves do céu, que significam as nações do mundo. Ao terminar a parábola com o mesmo quadro, Jesus promete que o Reino, embora comece minúsculo, se tornará um abrigo aberto a todos os povos. Os padres viram também nas aves as almas que vêm repousar nos ramos da Igreja.
O que significa uma fé do tamanho de um grão de mostarda?
Em Mateus 17,20, Jesus diz que uma fé do tamanho de um grão de mostarda pode dizer a um monte: "Passe daqui para lá", e ele passará. A palavra não trata de reunir grandes sentimentos, mas da natureza da própria fé: até a menor confiança genuína liga uma pessoa ao poder ilimitado de Deus. O que importa não é o tamanho da fé, mas a grandeza daquele a quem ela se agarra.
Veja também: A Parábola do Semeador. A Parábola do Bom Samaritano. A História de Samuel. O Cedro do Líbano na Bíblia. O Líbano na Bíblia. São Charbel Makhlouf.