Frases e ensinamentos de São Charbel
As pessoas procuram as frases de São Charbel esperando um tesouro de sabedoria, como temos os ditos de outros santos. A resposta honesta surpreende muitos. Ele quase não deixou palavra alguma.
São Charbel era um eremita do silêncio. Não escreveu nada que tenha sobrevivido, não pregou sermões que fossem copiados e permanecia tão quieto que mesmo os monges ao seu lado aprendiam com o seu modo de ser, e não com a sua fala. Seu maior ensinamento foi a sua vida. Compreender isso é a chave para ler tudo o que hoje circula sob o seu nome.
Um eremita que quase não deixou palavras
Nos últimos vinte e três anos de sua vida, São Charbel Makhlouf viveu sozinho num pequeno eremitério de pedra acima do mosteiro de Annaya. Seus dias eram construídos em torno da liturgia, do trabalho manual nos campos e de longas horas de oração diante do Santíssimo Sacramento.
Ele não era escritor nem pregador. Não há diário, nem coleção de cartas, nem livro de ensinamentos de sua mão. Quem o conheceu lembrava-se de um homem que falava raramente e apenas quando necessário, e que respondia às perguntas em poucas palavras simples antes de voltar ao silêncio.
Isso importa para quem procura suas frases. Onde outros santos deixaram milhares de páginas, São Charbel deixou um punhado de frases lembradas e o testemunho de quem vivia perto dele. É um pequeno arquivo, e ser claro quanto a isso nos impede de pôr palavras em sua boca.
Por isso ajuda separar o que encontramos em três grupos: as palavras verdadeiramente ligadas a ele, os ditos extraídos de seu exemplo e da tradição eremítica, e as mensagens populares que chegaram à impressão muito depois de sua morte. Os três não são a mesma coisa, e tratá-los como um só confunde o quadro.
A oração que recitava ao morrer
As palavras mais seguramente ligadas a São Charbel não são uma frase que ele inventou, mas uma oração que ele repetia. Em 16 de dezembro de 1898, enquanto celebrava a Missa, sofreu um derrame ao rezar a oferenda da Divina Liturgia maronita conhecida como Pai da Verdade.
Ele desfaleceu segurando a Eucaristia. Durante os oito dias que se seguiram até sua morte, na véspera de Natal, continuou repetindo as primeiras palavras da oração, junto com os nomes de Jesus e Maria. É o mais próximo que temos de seu próprio testamento final.
Pai da Verdade, eis o Teu Filho, sacrifício que Te agrada. Aceita a oferenda daquele que morreu por mim; eis o Seu sangue, derramado no Gólgota para a minha salvação, e por causa dele aceita a minha oferenda. Muitos são os meus pecados, mas maior é a Tua misericórdia.
Vale a pena ser preciso quanto ao que isso é. O Pai da Verdade é uma oração da Missa maronita, não uma composição de São Charbel. Ele não a escreveu. Ele a rezou tão plenamente que ela o conduziu através da própria morte.
É exatamente por isso que ela pertence ao centro de qualquer página sobre suas palavras. Mostra onde seu coração estava fixado: no sacrifício de Cristo na Eucaristia, oferecido de novo no altar. A oração é dele porque ele se entregou a ela, não porque a tenha escrito.
Seu ensinamento foi a sua vida
Se São Charbel ensinou, ensinou como os Padres do Deserto, sendo observado. Os monges que partilhavam o mosteiro com ele descreviam uma vida tão coerente que sua forma tornou-se uma espécie de doutrina. Alguns temas se destacam.
Silêncio. Ele guardava a fala com o mesmo cuidado com que guardava a oração. Numa época que fala sem parar, seu silêncio é em si uma mensagem: a de que a alma se aquieta antes de se aproximar de Deus.
A Eucaristia. Todo o seu dia apontava para a Missa, e ele morreu no meio dela. A devoção à Presença Real era o eixo em torno do qual sua vida girava.
Pobreza. Nada possuía, escolhia o alimento mais pobre e a cela mais simples, e usava um travesseiro duro recheado de folhas secas. Não queria conforto algum que pudesse abrandar sua atenção a Deus.
Obediência. Pedia permissão para as menores coisas e acatava as decisões de seus superiores sem discutir, vendo na obediência um caminho mais seguro do que a própria vontade.
Oração e trabalho. Unia a longa contemplação ao trabalho real nos campos, seguindo o antigo equilíbrio monástico entre oração e trabalho. A santidade, para ele, não estava separada do esforço comum.
Nada disso chega como um slogan. Chega como um padrão, e o padrão é a lição. Para as raízes mais profundas desse padrão, veja a mais ampla tradição maronita a que ele pertencia.
As mensagens populares de São Charbel
Pesquise on-line e você encontrará longas listas de frases de São Charbel: ditos sobre oração, família, amor e o demônio, muitas vezes postos sobre imagens à luz de velas. Elas merecem uma palavra honesta, pois a maioria não são ditos documentados do eremita histórico.
Alguns estão reunidos em livros de devoção que apresentam suas palavras ao modo dos Padres do Deserto, como a coletânea O amor é uma luz radiante: a vida e as palavras de São Charbel, compilada por Hanna Skandar. As linhas desses livros leem-se lindamente e refletem seu espírito, mas sua formulação exata não pode ser rastreada até um manuscrito que ele tenha deixado.
Outras pertencem a uma categoria ainda diferente: as chamadas mensagens de São Charbel, palavras que videntes modernos dizem ter recebido dele em oração. São revelação privada, não história. Um exemplo amplamente compartilhado diz:
Façam o que fizerem, façam-no com amor. Guardem as suas famílias e preservem-nas das ciladas do maligno pela presença de Deus no meio delas.
Atribuído às mensagens de São Charbel provenientes de revelação privada, e não um dito documentado do eremita histórico.
Não há nada de errado em buscar consolo em tais palavras, e a Igreja permite que a revelação privada nutra a devoção quando está de acordo com a fé. Mas é importante não apresentá-las como citações verificadas. A linha entre o que se sabe que São Charbel disse e o que lhe foi atribuído é real, e a honestidade a esse respeito o honra mais do que uma lista mais longa de frases faria.
O que a Igreja extrai dele
A Igreja Maronita não canonizou São Charbel por algo que ele tenha escrito. Canonizou-o por aquilo que ele era. Sua mensagem, na leitura da Igreja, é precisamente o seu ocultamento: uma vida voltada tão plenamente para Deus que não precisava de plateia.
O Papa Paulo VI, em sua beatificação, apontou São Charbel como testemunha do valor da oração, da penitência e do silêncio num mundo barulhento. É esse o ensinamento que a Igreja exalta: não um conjunto de máximas, mas uma direção de vida.
É também por isso que sua intercessão é tão amplamente buscada. Um homem que nada pediu para si é tido como capaz de pedir muito pelos outros, e as inúmeras curas relatadas junto ao seu túmulo leem-se como a continuação de uma vida inteiramente entregue a Deus. No Brasil, sobretudo na comunidade libanesa de São Paulo, essa confiança em sua intercessão permanece viva. Você pode aprofundar isso através dos milagres de São Charbel.
Assim, a melhor maneira de receber seu ensinamento não é memorizar frases, mas rezar com ele. As orações a São Charbel e a litania de São Charbel carregam seu espírito muito melhor do que qualquer lista de ditos, pois conduzem ao silêncio em que ele viveu.
Perguntas frequentes
O que São Charbel disse?
Muito pouco foi registrado por escrito. São Charbel era um eremita que guardava rigoroso silêncio, e nenhum caderno de seus ensinamentos sobreviveu. As palavras mais seguramente ligadas a ele são aquelas que o ouviram repetir ao morrer: a oração litúrgica maronita que começa com Pai da Verdade, eis o Teu Filho, e os nomes de Jesus e Maria. Diversas frases curtas ao estilo dos Padres do Deserto também lhe são atribuídas e reunidas em livros de devoção, embora sua formulação exata não possa ser rastreada até um manuscrito de sua mão.
São Charbel escreveu alguma coisa?
Não há nenhum conjunto de escritos deixado por São Charbel. Ele não era erudito nem autor, e seus vinte e três anos como eremita foram passados em silêncio, trabalho manual e oração, e não em composição. O que sabemos de sua mente vem das testemunhas que viveram ao seu lado e das orações da liturgia maronita que ele celebrava todos os dias. Sua vida, e não um texto, é considerada seu ensinamento.
O que é a oração do Pai da Verdade?
O Pai da Verdade é uma oração da Divina Liturgia maronita, oferecida na consagração, na qual o sacerdote apresenta o Filho ao Pai como o sacrifício para a nossa salvação. Não é uma composição de São Charbel, mas é a oração que ele recitava em 16 de dezembro de 1898, quando sofreu um derrame no altar. Ele continuou repetindo suas primeiras palavras, junto com os nomes de Jesus e Maria, até morrer em 24 de dezembro. Por essa razão, é a oração mais intimamente associada a ele.
As mensagens de São Charbel são reais?
As mensagens de São Charbel que circulam amplamente on-line são revelação privada, e não palavras documentadas do eremita histórico. Vêm de livros modernos e de relatos de videntes que dizem ter recebido palavras dele, e devem ser lidas como material de devoção, e não como citações verificadas. A Igreja permite que a revelação privada nutra a devoção quando está de acordo com a fé, mas nunca pede a ninguém que nela creia como se crê na Escritura. Tratar essas linhas como frases registradas do próprio São Charbel vai além do que as evidências sustentam.
O que São Charbel ensinou?
São Charbel ensinou sobretudo sem palavras, pela forma de sua vida: silêncio, amor à Eucaristia, pobreza, obediência aos superiores, oração constante e trabalho manual honesto nos campos. A tradição maronita extrai dele uma mensagem de ocultamento e de união com Deus, a convicção de que uma vida inteiramente voltada para Deus dá mais fruto do que qualquer realização pública. Sua santidade só se tornou visível após sua morte, o que é parte da própria lição.
Veja também: São Charbel Makhlouf. O eremitério de São Charbel. Orações a São Charbel. Litania de São Charbel. Os milagres de São Charbel. A tradição maronita. A Divina Liturgia maronita.