A canonização de São Charbel
São Charbel Makhlouf foi canonizado em 9 de outubro de 1977 pelo Papa Paulo VI no Vaticano. Ele havia sido beatificado pelo mesmo papa doze anos antes, em 5 de dezembro de 1965.
Entre sua morte em 1898 e aquela manhã de outubro em Roma passaram-se quase oitenta anos de investigação silenciosa. Esta é a história de como um eremita libanês silencioso se tornou um dos santos mais amados do mundo moderno, passo a passo, com cuidado paciente.
As quatro etapas da santidade
A Igreja não declara alguém santo às pressas. O processo passa por quatro etapas reconhecidas, e cada uma tem um nome e um limiar que precisa ser alcançado antes de a seguinte começar.
A primeira etapa é a de Servo de Deus, concedida quando uma causa é formalmente aberta e a vida e os escritos da pessoa começam a ser examinados. A segunda é a de Venerável, declarada quando a Igreja julga que a pessoa viveu as virtudes de modo heroico. A terceira é a de Beato, alcançada pela beatificação, que normalmente exige um milagre reconhecido. A quarta e última etapa é a de Santo, alcançada pela canonização, que exige mais um milagre reconhecido.
São Charbel passou por todas as quatro. Entender onde se encaixam seus milagres esclarece toda a história, porque em cada limiar a Igreja pedia provas de que Deus agia por meio dele.
A abertura da causa
São Charbel morreu na véspera de Natal de 1898, após vinte e três anos como eremita acima do Mosteiro de São Maron em Annaya. Quase de imediato, fatos incomuns começaram a ser relatados junto ao seu túmulo.
Uma luz intensa foi vista ao redor do túmulo à noite. Quando o corpo foi exumado em 1899, foi encontrado intacto e exsudando um líquido avermelhado, semelhante a óleo — um fenômeno que se repetiria por décadas. Os peregrinos que ali rezavam e eram ungidos começaram a relatar curas.
Esses relatos foram se acumulando de forma constante ao longo dos anos seguintes. Havia o suficiente para que as autoridades da Igreja abrissem sua causa, tornando-o Servo de Deus, e teve início o longo trabalho de reunir testemunhos e examinar sua vida. Para a história mais completa do corpo em si, veja nosso artigo sobre o corpo incorrupto de São Charbel.
Declarado Venerável
O limiar seguinte era o da virtude heroica. A Igreja estudou o modo como São Charbel havia vivido: sua obediência, sua pobreza, seu silêncio e, acima de tudo, sua vida de oração ininterrupta e devoção eucarística no eremitério.
Quando os examinadores se convenceram de que ele havia praticado as virtudes cristãs em grau heroico, ele foi declarado Venerável. Isso ainda não era uma afirmação de que ele estava no céu, mas um reconhecimento formal de que sua vida havia sido santa de maneira extraordinária.
Com esse reconhecimento, a causa pôde avançar rumo à beatificação. O que se precisava agora era de um milagre: um sinal, julgado inexplicável por meios naturais, que Deus concedesse pela intercessão do eremita.
Beatificação, 5 de dezembro de 1965
O Papa Paulo VI beatificou o padre Charbel em 5 de dezembro de 1965, na Praça de São Pedro. O momento deu à cerimônia um cenário notável, porque caiu nos últimos dias do Concílio Vaticano II.
Bispos de todos os cantos do mundo ainda estavam reunidos em Roma para o concílio. Muitos deles testemunharam um eremita maronita do Líbano sendo elevado à honra dos altares, e o momento carregava uma mensagem discreta sobre o valor da santidade oculta e contemplativa numa Igreja voltada para a era moderna.
A beatificação apoiou-se em duas curas que a Igreja havia reconhecido, ambas de 1950. Irmã Maria Abel Kamari, religiosa da Congregação dos Sagrados Corações, estava acamada havia anos por causa de uma doença grave e de paralisia; foi levada ao túmulo de São Charbel em julho de 1950 e recuperou-se, uma recuperação depois confirmada por exame médico.
A segunda foi a de Iskandar Naim Obeid, um ferreiro de Baabdat que estava cego de um olho havia mais de uma década, após um fragmento de metal o atingir. Em peregrinação a Annaya em 1950, ele relatou um sonho no qual um monge tocava seu olho, e acordou com a visão restaurada. Os médicos não conseguiram encontrar explicação natural. Reconhecidos esses sinais, São Charbel pôde ser chamado de Beato.
Canonização, 9 de outubro de 1977
Doze anos depois, em 9 de outubro de 1977, o Papa Paulo VI o canonizou no Vaticano durante o Sínodo Mundial dos Bispos. Com esse ato, a Igreja declarou, com toda a plenitude de sua autoridade, que Charbel Makhlouf é santo no céu.
A canonização pediu mais um milagre reconhecido, distinto dos que foram usados para a beatificação. Ele veio do caso de Mariam Assaf Awad, uma libanesa que havia passado por várias cirurgias de câncer entre 1963 e 1965, enquanto a doença se espalhava pelo seu corpo.
Em 1967, seu estado era considerado grave. Certa noite, ela rezou fervorosamente por uma cura completa pela intercessão de São Charbel, e acordou na manhã seguinte sem nenhum sintoma. Exames médicos detalhados confirmaram uma recuperação que os médicos não conseguiam explicar, e a Congregação para as Causas dos Santos a aceitou como o milagre da canonização.
É por isso que a devoção tantas vezes fala de São Charbel como um curador. Os próprios marcos de sua causa são curas. Para um relato mais completo, veja os milagres de São Charbel e a lista de casos documentados.
O primeiro santo libanês moderno
São Charbel foi o primeiro santo maronita e libanês moderno a ser canonizado. Para um pequeno país de fé cristã antiga, isso foi mais do que um acontecimento religioso; foi um momento de reconhecimento no cenário mundial.
Sua canonização veio em uma época difícil para o Líbano, nos primeiros anos de uma longa e dolorosa guerra civil. Para muitos libaneses, um eremita de suas próprias montanhas sendo honrado em Roma era um sinal de esperança e uma fonte de orgulho que atravessava as divisões que dilaceravam o país.
Ela também abriu um caminho. Nas décadas seguintes, outras figuras libanesas percorreram a mesma estrada rumo aos altares, entre elas Santa Rafqa e São Nimatullah Al-Hardini. São Charbel havia ido primeiro, e sua causa mostrou ao mundo como era a santidade maronita. Essa devoção atravessou o oceano: no Brasil, lar da maior comunidade maronita fora do Líbano, sobretudo em São Paulo, sua memória permanece viva entre os fiéis.
Hoje sua festa é celebrada todo mês de julho, e os peregrinos ainda sobem aos milhares até Annaya. Para saber como a data é marcada, veja nosso guia sobre a festa de São Charbel, e para toda a história de sua vida, nosso perfil de São Charbel Makhlouf.
Por que o processo lento importa
Pode parecer estranho que a Igreja demore tanto, e exija provas tão cuidadosas, para afirmar o que os devotos já acreditavam. Mas a paciência faz parte do significado.
Ao exigir virtude heroica e milagres reconhecidos, a Igreja não duvida da obra de Deus; ela a protege. Quando finalmente declara um santo, essa declaração tem peso justamente porque não foi feita de forma leviana.
Para São Charbel, a longa estrada terminou em um título que a Igreja raramente concede e nunca retira. Ele é santo, apresentado a toda a Igreja como amigo de Deus e modelo de oração, e católicos de todo o mundo podem pedir sua intercessão com confiança. Muitos o fazem por meio das orações a São Charbel e no seio da mais ampla comunhão dos santos maronitas.
Perguntas frequentes
Quando São Charbel foi canonizado?
São Charbel Makhlouf foi canonizado em 9 de outubro de 1977 pelo Papa Paulo VI no Vaticano, durante o Sínodo Mundial dos Bispos. A canonização é a etapa final pela qual a Igreja declara com certeza que uma pessoa é santa no céu. Ela ocorreu doze anos após sua beatificação, em 1965.
Quando São Charbel foi beatificado?
São Charbel foi beatificado em 5 de dezembro de 1965 pelo Papa Paulo VI na Praça de São Pedro. A data caiu nos últimos dias do Concílio Vaticano II, o que deu à cerimônia uma ampla audiência de bispos de todo o mundo. A beatificação permitiu que ele fosse chamado de Beato e venerado publicamente na Igreja Maronita.
Quem canonizou São Charbel?
O Papa Paulo VI beatificou São Charbel em 1965 e o canonizou em 1977. O mesmo papa conduziu as duas etapas da causa, o que é incomum, e ele tinha São Charbel em alta estima como testemunha da oração e do silêncio para a Igreja moderna.
Quais milagres levaram à canonização de São Charbel?
Sua beatificação em 1965 apoiou-se em duas curas reconhecidas pela Igreja, ambas de 1950: Irmã Maria Abel Kamari, uma religiosa acamada curada em seu túmulo, e Iskandar Naim Obeid, um ferreiro que recuperou a visão de um olho cego. Sua canonização em 1977 exigiu mais um milagre reconhecido, a cura em 1967 de Mariam Assaf Awad de um câncer avançado depois que ela rezou por sua intercessão.
São Charbel foi o primeiro santo libanês?
São Charbel foi o primeiro santo maronita e libanês moderno a ser canonizado. Sua canonização em 1977 foi um marco para o Líbano e para a Igreja Maronita, e abriu caminho para outras figuras libanesas, como Santa Rafqa e São Nimatullah Al-Hardini, serem elevadas aos altares nos anos que se seguiram.
Veja também: São Charbel Makhlouf. Os milagres de São Charbel. Lista de milagres documentados. O corpo incorrupto de São Charbel. A festa de São Charbel. Orações a São Charbel. Santos maronitas.