O Terço da Misericórdia
O Terço da Misericórdia é uma oração curta de confiança na misericórdia de Deus, rezada nas contas de um terço comum em cerca de sete minutos. Jesus o entregou a uma jovem religiosa polonesa, Santa Faustina Kowalska, em 1935, e ele se tornou uma das devoções mais rezadas do mundo católico, com uma presença imensa no Brasil.
Para os maronitas, o terço guarda uma surpresa silenciosa. As suas palavras finais, Deus Santo, Deus Forte, Deus Imortal, são o Trisagion: o mesmo hino antiquíssimo que a Igreja Maronita canta em siríaco há mais de 1.500 anos. Uma revelação feita a uma religiosa polonesa termina no hino mais antigo do Oriente cristão.
Este guia traz as orações completas, conta por conta, e depois segue esse fio mais antigo.
De onde vem o Terço da Misericórdia
Helena Kowalska nasceu em 1905 na aldeia de Glogowiec, no centro da Polônia, a terceira de dez filhos. Teve pouca instrução e trabalhou como empregada doméstica antes de entrar, aos vinte anos, na Congregação das Irmãs de Nossa Senhora da Misericórdia, onde recebeu o nome de Irmã Maria Faustina.
Passou os anos de convento na cozinha, na horta e na portaria. Por trás dessa vida escondida, de 1931 até a morte, recebeu visões de Jesus, que lhe pediu para tornar a Sua misericórdia conhecida do mundo. Por obediência, registrou tudo num diário, publicado mais tarde como o Diário de Santa Faustina, A Misericórdia Divina na Minha Alma.
O terço em si veio em Vílnius, em setembro de 1935. Faustina viu um anjo enviado para ferir a terra e se encontrou suplicando pelo mundo com palavras que lhe foram dadas interiormente. No dia seguinte, Jesus a ensinou a rezar essas palavras nas contas de um terço comum, prometendo que grande misericórdia viria por meio delas.
Faustina morreu de tuberculose em 1938, aos trinta e três anos. O Papa João Paulo II a canonizou em 30 de abril de 2000, a primeira santa do novo milênio, e no mesmo dia instituiu o Domingo da Divina Misericórdia para toda a Igreja.
Como rezar o Terço da Misericórdia, conta por conta
Você não precisa de nada além de um terço comum de cinco dezenas. O Terço da Misericórdia segue as mesmas contas com orações próprias, e a devoção inteira leva cerca de sete minutos.
1. Comece com o Sinal da Cruz
Faça o Sinal da Cruz. Depois, nas primeiras contas, reze um Pai Nosso, uma Ave Maria e o Creio. Essas orações iniciais assentam o terço sobre o fundamento da fé.
2. Na conta grande antes de cada dezena
Onde o rosário tem a conta do Pai Nosso, reze o oferecimento que Jesus deu a Faustina:
Eterno Pai, eu Vos ofereço o Corpo e Sangue, a Alma e Divindade de Vosso diletíssimo Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, em expiação dos nossos pecados e do mundo inteiro.
3. Nas dez contas pequenas de cada dezena
Em cada uma das dez contas, reze a súplica curta que é o coração pulsante do terço:
Pela Sua dolorosa Paixão, tende misericórdia de nós e do mundo inteiro.
4. Repita nas cinco dezenas
Continue ao redor do terço: o oferecimento ao Eterno Pai em cada conta grande, as dez súplicas curtas nas contas pequenas. Cinco dezenas ao todo, como no rosário. Deixe a repetição desacelerar a sua respiração, em vez de apressá-la.
5. Encerre com o Trisagion, três vezes
Depois da quinta dezena, reze três vezes:
Deus Santo, Deus Forte, Deus Imortal, tende piedade de nós e do mundo inteiro.
Muitos acrescentam, antes do Sinal da Cruz, uma oração final vinda da comunidade de Faustina:
Deus Eterno, em quem a misericórdia é infinita e o tesouro de compaixão inesgotável, olhai para nós com bondade e aumentai em nós a Vossa misericórdia, para que, nos momentos difíceis, não nos desesperemos nem desanimemos, mas, com grande confiança, nos submetamos à Vossa santa vontade, que é o próprio Amor e a própria Misericórdia. Amém.
O final que os maronitas já conhecem: Qadishat Aloho
É aqui que o terço toca algo muito mais antigo do que 1935. Aquele encerramento tríplice, Deus Santo, Deus Forte, Deus Imortal, é o Trisagion, um dos hinos mais antigos da Igreja. Os maronitas o cantam em toda Divina Liturgia, perto do início, antes da leitura das Escrituras. E o cantam em siríaco:
Qadishat Aloho, Qadishat Hayltono, Qadishat Lo Moyouto, itraham 'alayn.
Santo sois Vós, ó Deus. Santo sois Vós, ó Forte. Santo sois Vós, ó Imortal. Tende piedade de nós.
O Trisagion já era cantado nas igrejas do Oriente no século V. O siríaco é um dialeto do aramaico, a língua que Jesus falava, e na Divina Liturgia Maronita o hino é dirigido ao próprio Cristo, crucificado e ressuscitado. Quando um maronita chega ao fim do Terço da Misericórdia, as palavras na sua boca são as palavras que os seus antepassados cantaram nas montanhas do Líbano por quinze séculos.
A afinidade vai além de um hino. A misericórdia é o grande tema dos padres siríacos, que nunca se cansaram das palavras rahmeh e hnono, misericórdia e compaixão, e a tradição maronita repete "tende piedade de nós" mais do que quase qualquer outra frase do seu culto. O terço de Faustina alarga esse mesmo clamor com quatro palavras: de nós, e do mundo inteiro.
Assim, um maronita que reza este terço não está tomando emprestada uma devoção estrangeira. Está ouvindo uma mística polonesa devolver, no fim da sua oração, o canto mais antigo da sua própria Igreja.
A Hora da Misericórdia: a oração das 15 horas
Jesus morreu na cruz às três da tarde. Ele pediu a Faustina que honrasse esse momento todos os dias, chamando-o de hora de grande misericórdia, e que suplicasse nela pelo mundo inteiro, especialmente pelos pecadores.
A forma clássica de guardar a hora é rezar o terço às 15h. Mas o convite é mais amplo. Uma pausa na sua mesa de trabalho, uma única frase de confiança, um Sinal da Cruz feito devagar no trânsito: a hora pede lembrança, não desempenho.
O terço também se encaixa bem num ritmo diário de oração. Muitos o combinam com o Terço de São Charbel pelas suas intenções, ou com o Rosário Maronita à noite. E se o que atrai você a esta devoção é a necessidade de ser perdoado ou de perdoar, a oração pelo perdão percorre a mesma estrada.
Perguntas frequentes
Quanto tempo leva o Terço da Misericórdia?
Cerca de sete minutos, num ritmo sem pressa. O terço usa as mesmas contas do rosário, mas a sua oração repetida é uma única frase, por isso é mais rápido do que cinco dezenas de Ave Marias. Muitas pessoas o rezam às 15h, a Hora da Misericórdia, e ele cabe com facilidade num intervalo de almoço ou num momento de silêncio no carro.
Pode-se rezar o Terço da Misericórdia num terço comum?
Sim. O terço foi dado para ser rezado nas contas de um terço comum, então qualquer terço de cinco dezenas serve. Não são necessárias contas especiais. Se você não tiver um terço à mão, pode contar as dez orações curtas nos dedos, dezena por dezena.
O que é a oração das 15 horas?
As três da tarde são a hora em que Jesus morreu na cruz. No diário de Santa Faustina, Jesus pediu que esse momento fosse honrado todos os dias como a Hora da Misericórdia: uma pausa, ainda que breve, para apelar à Sua misericórdia pelo mundo, especialmente pelos pecadores. Rezar o Terço da Misericórdia às 15h é a forma mais comum de guardá-la, mas até uma única frase de confiança honra essa hora.
Os católicos orientais rezam o Terço da Misericórdia?
Sim, livremente e de bom grado. O terço é de origem latina, nascido num convento polonês, mas nada nele pertence a um só rito. Para os maronitas, ele até termina em terreno conhecido: o final Deus Santo, Deus Forte, Deus Imortal é o Trisagion, o Qadishat Aloho que a Divina Liturgia Maronita canta em siríaco há mais de 1.500 anos.
O que é o Domingo da Divina Misericórdia?
O Domingo da Divina Misericórdia é o primeiro domingo depois da Páscoa. Jesus pediu a Santa Faustina uma festa da misericórdia nesse dia, e o Papa João Paulo II a instituiu para toda a Igreja em 30 de abril de 2000, o dia em que a canonizou. A festa celebra a misericórdia de Deus como coroa do mistério pascal, e muitas paróquias rezam o terço juntas naquela tarde.
Veja também: Terço de São Charbel. Rosário Maronita. Oração pelo perdão. A língua que Jesus falava. A Divina Liturgia Maronita. A tradição maronita. São Charbel.